20.10.13

Bulnes



Bulnes.  Duas sílabas, nome curto, significado longo.

Bulnes é a última aldeia do Principado das Asturias sem acesso motorizado. Encaixada num anel de picos espetados em direcção ao ar frio da cordilheira dos Picos da Europa, no Norte de Espanha, não destoaria numa das obras de Arthur Conan Doyle sobre mundos perdidos: dois pequenos núcleos de casas de pedra, o de baixo num prado abraçando as curvas gentis de um ribeiro de águas límpidas, o segundo sobranceiro ao vale, num promontório que apenas deixa imaginar o vazio que logo abaixo se escava, cortante, e nos deixa sem respiração perante a paisagem simultaneamente tranquilizante e caótica que a rocha calcária incarna.

Povoado até há pouco condenado ao abandono, à desertificação e à obliteração da memória, ganhou um fôlego inesperado em 2001, com a inauguração de um polémico funicular que, rasgando as entranhas do maciço, abriu a porta do turismo à aldeia. Hoje, apesar das opiniões não serem consensuais, apresenta-se como um exemplo de que a vitalidade económica pode estar associada a uma atitude respeitadora do meio ambiente e da cultura local. Com cafés, um ou dois restaurantes e outros tantos albergues, tem, durante o Verão, uma dinâmica dual: por um lado, os turistas de uma tarde, que apenas sobem pelo funicular e descem pouco depois. Por outro, os caminheiros, que aqui chegam como desde sempre aqui se chegou: a pé.




Com poucas dezenas de almas residentes, não é difícil conhecermos alguns dos personagens locais. Alberto é para muito o patriarca de Bulnes. Durante anos foi o guarda de um dos mais remotos refúgios de montanha dos Picos: Jou de los Cabrones. O nome dispensa explicações. Não há forma fácil de lá chegar. E muito menos de lá viver. É um local épico, envolto em histórias em que a lenda e a realidade se entrelaçam ao ponto de não ser possível apartá-las. Hoje, Alberto vive em Bulnes, gerindo o melhor restaurante e um pequeno hotel, com o filho Rafa.


Mas o mais insólito recanto esperava-me mais a baixo, numa viela paralela ao rio. Um outro café, bastante próximo do conceito de tasca portuguesa. Cá fora, num alpendre, um bando de jovens flutuava numa nuvem de fumo de odor inconfundível e efeito enebriante. A (a)normalidade media-se pelo número de rastas ou pela cor dos cabelos, variando do rosa-choque ao verde-alface. A animação era inegável. Mas era dentro que o cenário se transfigurava e a fauna se exibia em todo o seu esplendor. O dono, de bigode louro e olhos esverdeados, atarracado, mostrava sinais de ter ultrapassado há muito o limite sensato de ingestão de alcool. Ao longo da noite, um amigo, bem mais sóbrio, fazia as honras da casa, mantendo o barco a flutuar. Um outro suposto funcionário, careca e de rosto afilado, do qual faiscava um olhar gélido como uma faca de aço japonês, recebia ordens de uma octogenária que, afinal, era quem ali mandava. Neste microcosmos, que cabia numa sala com meia dúzia de mesas, passámos um serão tão estranho quanto memorável, ao som da chuva que ia caindo na calçada gasta por milhares de pés.

Com a mente já no dia seguinte, a caminhada até Caín, ao longo da mítica Garganta do Cares, ecoava. À medida que os clientes se iam esfumando na noite de breu, apercebemo-nos que a nossa hora havia chegado. Na despedida, um seguro "Até breve!" aos nossos anfitriões. A noite desconcertante acabara por ser um dos pontos altos da passagem por Bulnes. Entre olhares cúmplices, partimos em direcção ao refúgio, de onde um sonoro ressonar nos recordou as alegrias de camaratas partilhadas.


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