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17.2.18

Teo



Teodoro Quispe. Teo para os amigos. Foi este o nome que mais pronunciei nos dias de ascenção ao Huayna Potosi. E é com ele que termino esta série, dedicada àquela montanha que tanto passou a representar para mim, uma singela homenagem a uma pessoa com que apenas privei escassos dias mas que acabou por ficar no meu coração! 

O Teo é guia de montanha na Bolívia há mais de uma década (encartado, apressa-se a assegurar, de credencial na mão)! Inicialmente de poucas palavras, vai-se tornando mais eloquente com o passar dos dias. Jovem, na casa dos 30, tem já um filho adolescente, que encontramos no campo alto. Trabalha na montanha, na base da cadeia alimentar, segundo diz ele próprio - é porter (carregador) de mantimentos para o refúgio que serve de suporte para o ataque ao pico. 

Vive em El Alto, a grande cidade-satélite de La Paz, que se espraia até perder de vista, no planalto que encima a cratera da capital de facto do mais pobre país da América do Sul, a 4000m de altitude. No meio da confusão que a feira, à porta de casa, provoca, relembra-me que devo comprar pilhas extra para a lanterna frontal e uns snacks para os dias de aclimatação e assalto ao cume. À medida que saímos da metrópole, rapidamente o tijolo caótico das ruas desordenadas dá lugar a vastas extensões de terra ocre, estéril, tornadas ainda mais soturnas pela manhã chuvosa que se apresenta. A certa altura a neve começa a bordejar as curvas mais escuras da estrada, e vamos subindo lentamente a montanha, até chegar aos 4700m, a base da caminhada.

No refúgio, Teo faz um pouco de tudo - trata da logística dos quartos, começa a preparar o almoço, verifica com o guarda as condições da neve e as previsões meteorológicas para o dia seguinte. A parte da tarde será ocupada com um trekking curto, de aclimatação, que culmina na escalada do Glaciar Viejo - notoriamente reduzido, a julgar pelas marcas da moreia, na encosta, largas dezenas de metros acima das nossas cabeças!



Mas é nos dias seguintes que o seu carácter cândido, quase ingénuo mas extremamente profissional, se revela. Na noite anterior à subida o mal de altitude começa a fazer-se sentir e começa a testar a minha convicção quanto à subida. O vento intenso, que parece querer fazer voar metade do precário refúgio, junta-se à festa! Com a subida marcada bem cedo, de forma a chegar ao pico antes do nascer do sol, com a neve mais firme pela descida de temperatura nocturna, arrancamos a um passo aparentemente demasiado lento. Nesta montanha fácil, o grande obstáculo é a altitude e as consequências fisiológicas às quais a maioria dos corpos não está habituado. Aos 5900m sinto que a coordenação dos meus movimentos está longe de ser a desejável num ambiente destes - o vento das crestas é irregular e intenso, sinto-me instável, a bambolear, e peço ao Teo para parar. Com um sorriso endiabrado, continua: "-Até vamos tornar isto mais interessante! Vamos subir já aqui". Levanto o olhar e a escassa luz que já começava a surgir no céu mostra uma encosta quase vertical! Fez-se um click. De repente sinto a adrenalina a percorrer o corpo e o turpor a desvanecer-se com ela. Daqui em diante não havia margem para erros e a atenção redobrada obrigava a um foco que fez desaparecer as dores de cabeça. Sem ter bem noção de quanto faltava ainda (o altímetro do relógio deixou de funcionar, provavelmente devido à baixa temperatura), lá fui subindo, passo após passo, encordado com o Teo, que de tempos a tempos murmurava algo do género "-Está quase!".




A chegada ao pico já aqui a contei. Apenas não falei do abraço sentido que demos, que me ficou na memória juntamente à sensação de superação. Para o Teo era mais um dia de trabalho. Para mim era a concretização de um sonho de criança. A ele o devo, em boa parte. Gracias, Teo!



30.1.18

Nuances da montanha


Por diversos motivos, pessoais e profissionais, tenho estado particularmente exposto a estímulos de montanha nas últimas semanas. Neve, frio, trekking, planos a curto, médio e longo prazo assomam no horizonte e coloram o écran na minha agenda!

Resolvi por isso aproveitar para, revisitando o arquivo, dar continuidade ao tema, na forma de uma selecção de fotografias de paisagens de montanha, captadas durante a ascensão ao Huayna Potosi do passado Verão.




A alta montanha é uma temática que me apaixona desde há muito, ainda que o meu percurso recente não me tenha conduzido tanto lá quanto gostaria. Há algo mágico nessa descoberta visual que desperta a curiosidade, o desafio de chegar além sempre presente... Por isso aqui partilho um conjunto de fragmentos visuais desse elevado recanto da Bolívia, entre os 4700m e os 6088m de altitude.




                



Se tudo correr como planeado, durante este ano terei novidades ainda mais elevadas! :-) O feitiço da montanha é este... há sempre mais uma que nos lança, na brisa forte do amanhecer, subtil mas insidiosamente, a milhares de quilómetros de distância, o seu canto de sereia...

Para terminar, um pequeno vídeo de bastidores da descida no pico, pela aresta principal:




3.11.17

6088m


Pelas 6:40 do dia 4 de Julho de 2017 chegava ao topo do pico Huayna Potosi, na Bolivia. 6088m acima do nível do mar. A esta hora a noite estava ainda cerrada, apenas no horizonte Leste, por cima da selva amazónica, se adivinhava o dealbar do dia. Os -15ºC mal se faziam sentir, os ventos fortes que me acompanharam ao longo de quase toda a subida haviam cessado, como que por magia! À medida que a luz ia enchendo a metade oriental do meu campo de visão a neve ganhava cores indescritíveis, desvendando formas na montanha que não havia visto ainda hoje. A ascensão começara as 1:30, após quatro horas de sono entrecortado, entre o efeito da altitude e a ansiedade pela subida.

Às 23:30 acordava e o vento lá fora assobiava por entre as placas mal montadas do refúgio, ameaçando entrar porta adentro. Pouco tranquilizador para quem duvidada das condições climatéricas. Não voltei a adormecer. Resolvi sair, enfrentar a visão dantesca do gigante branco. A lua, num quarto crescente já avançado, iluminava como se dia se tratasse, reflectindo na neve a sua luz tranquila. À parte o vento, nada mais se escutava.

O campo alto - um refúgio básico, a 5130m de altitude - é a base para o ataque à montanha. 4 a 5 horas de subida, 2 de descida. À medida que as hostes vão acordando, espaço apertado mais parece uma torre de Babel - gente de muitos pontos do globo congrega-se aqui, com o olhar brilhante e garganta seca, sensações comuns em pessoas tão diversas. Nem todos chegarão ao pico, mas estar aqui já é por si só uma conquista!




Com o Teo, meu guia e parceiro nesta empreitada, a quem agradeço e com quem partilho o mérito sa ascensão, preparo-me. A escolha de roupa é fulcral. Demais será um peso e provoca sobreaquecimento e suor, que depois arrefece rapidamente; e pouca arrisca exposição ao frio considerável que se sente no topo. Muita água é fundamental, mantimentos calóricos e, claro, folhas de coca em abundância! Em Roma sê romano!

A subida inicia-se então, a passo lento. Muito lento. Apesar de já ter realizado algumas outras ascensões com idêntico desnível em alta montanha (1000m de desnível positivo), nunca o tinha feito a esta altitude. E embora já estivesse acima dos 3500m há mais de duas semanas, chegando aos 5000m no deserto do Uyuni, não sabia como reagiria o meu corpo ao esforço e sobretudo à altitude. Rapidamente percebi: ainda que com 3 dias de aclimatação, as dores de cabeça intensas depressa se fizeram anunciar.

A certa altura seria-me a caminhar como um zoombie, e receei tropeçar ou sair do caminho - algo fatal nalgumas zonas do percurso! Fui parando, a cada 45 minutos. Não mais de 2 ou 3 minutos de cada vez, para não arrefecer ou perder o ritmo. A certa altura, estaquei. Olhei o Teo nos olhos e confessei que não sabia se estaria em condições de fazer a subida. Ele pôs-me a mão no ombro e com uma suavidade na voz que senti como um toque de magia e que agora me humedece o olhar, disse: "Tu consegues! Eu sinto-o. É normal sentires-te assim, é a altitude. Estamos quase lá." Que há anjos, nunca duvidei. Mas vê-los é raro. Sentir o seu toque ainda mais! Este foi um desses momentos.

O "quase lá", no entanto, eram quase 200 metros em altitude, e a parte mais exigente da ascensão. Uma parede de neve e gelo erguia-se à nossa frente. Só de dia veria a sua total dimensão - e ainda bem!!! Mas pela exigência física e técnica a adrenalina explodiu e de repente todos os sentidos estavam despertos! Os últimos 100 metros foram quase feitos na vertical, crampons espetados de frente, piolet usado para subir o peso do corpo, atenção plena em cada movimento.



A subida ao Huayna Potosi não é tecnicamente difícil (pelo menos quando feita pela rota normal). Há quem diga até que é o 6000 mais acessível do mundo (não sei, nunca subi a nenhum outro). Para mim, era um objectivo que me aliciava há anos, de cada vez que vinha à Bolivia com grupos Nomad, bem visível desde La Paz, isolado, sedutor. A par do Caminho de Santiago, 250km e 9 dias de êxtase e dor que percorri em Março, foi dos maiores desafios pessoais a que me propus.

Não foi o troféu da montanha que me levou a tentar a subida. Esse de pouco ou nada serve. Foi, isso sim, a decisão de fazer algo que nunca tinha feito. De me testar, de ver até onde podia ir, de me questionar e ir para além da minha zona de conforto, expandi-la e, quiçá, voltar de lá maior e mais forte. Interiormente. E não poderia ter tomado melhor decisão! A chegada ao pico, ainda de noite, com as cidades de La Paz e El Alto iluminadas, ao longe, pareceu-me inverosímil. Senti-me fora do meu eu. Como um espectador de mim próprio, do cenário onde me encontrava. Senti uma paz, uma energia, uma plenitude que poucas vezes na vida havia experienciado. A última das quais à chegada a Santiago de Compostela, igualmente de corpo vergado mas de espírito erguido, vertical. Naqueles instantes nada mais importava. Estava absolutamente absorto no agora. Aqui e agora. E como é bom!!! Como nós devíamos focar mais em experiências deste género, implicando ou não desafios físicos!

No próximo domingo tentarei terminar o último e porventura mais difícil dos 3 objectivos a que me propus à entrada dos 40: correr uma maratona. Tal como no Caminho de Santiago como na subida ao Huayna Potosi é o processo que me interessa, mais que o (eventual) sucesso da empreitada. Não é garantido. Mas tudo farei para lá chegar.


20.11.15

Gente colorida


Cor!

Adoro cor na minha vida. Adoro gente colorida. Adoro espíritos folclóricos. Adoro fotografar a cores! No inverno então, a cor é um refrescante bálsamo para as sombras cinzentas que, subrepticiamente, nos cavalgam de tempos a tempos. Embora algo distante, há um tipo de local onde ela faz verdadeiramente parte do quotidiano, é visível em cada esquina, em cada paisagem, em cada corpo: a estação de ski! De todas as que conheço, e porque lá tenho regressado regularmente nos últimos anos, Chamonix tem um lugar especial no meu coração. De cada vez que chego, é como se entrasse de chofre numa daquelas lojas de tintas que anunciam fenomenais misturas cromáticas, numa explosão de 10 000 cores diferentes! 

A mescla entre a Natureza agreste dos Alpes, que espartilha com as suas encostas brancas e empinadas a malha urbana da cidade, epicentro de uma vivência única do espírito de montanha, é o cenário improvável para este desfile de cor e forma. Skis, calças, casacos, blusões de penas, gorros, luvas, botas, pranchas, tudo serve para uma afirmação de estilo que choca com o cinzentão paradigma a que, na maioria das vezes, sou exposto em Portugal. Decidi portanto compilar alguns desses splashes de cor, resultantes de três viagens à capital do alpinismo mundial.



E claro que a forma não poderia deixar de ser um íman para alguém que, como eu, vive da imagem. Há uma atracção telúrica para o belo, para o que me excita o olhar, sobretudo quando um lado selvagem está presente. Mas vai mais fundo: na montanha há um código implícito de conduta que foge, amiúde radicalmente, às normas. A assunção do risco – seja em vertiginosas descidas freeride na neve virgem, seja em ascensões que desafiam os sentidos a picos inóspitos ou em escaladas cruas de rocha vertical – rompe sempre com algo de instituído. E isso seduz-me. Fotográfica, mas sobretudo emocionalmente...


7.2.15

Tudo bons rapazes


É já um hábito que, em algumas das viagens Nomad, entre o grupo esteja, para além do líder oficial da viagem, mais um (ou até dois!) bons rapazes. Tal aconteceu-me por duas vezes, tendo participado enquanto "pendura", em registo semi-profissional, e a experiência revelou-se extremamente enriquecedora, para além do prazer da viagem em si mesmo.

Por um lado é uma excelente oportunidade de vermos diferentes formas de trabalhar, posturas perante os grupos e situações que, mais cedo ou mais tarde, acabaremos por experienciar também. Formas de lidar com as culturas locais, sugestões de dicas para rentabilizar orçamentos, truques para tornar  mais expeditos certos procedimentos comuns a qualquer viagem - pagamentos, marcação de horas, negociação de preços, só para enunciar alguns. Por outro, num registo mais pessoal, liberta-nos para outras ocupações relativamente às quais, enquanto líderes, raramente temos disponibilidade (física, temporal ou mental): fotografar, conversar com os locais, sentir a ritmo mais lento o pulsar das culturas ou paisagens que cruzamos!





Assim, na última viagem aos Alpes, tive por companhia o Pedro Gonçalves, um dos fundadores da agência. Que ia com uma tarefa adicional, auto-imposta: captar em vídeo a vivência da capital do alpinismo mundial, Chamonix, a nossa base para a viagem Inverno nos Alpes, que tem lugar no final de Março de cada ano. Ao longo de uma semana, explorámos alguns dos mais icónicos locais da região: o glaciar Mer de Glace, no qual se penetra - literalmente - por uma gruta escavada no gelo; várias das pistas de ski que descem as encostas da mais alta montanha da Europa Ocidental, o Monte Branco; as densas florestas do vale, completamente nuas e de um contraste cru ou os inacreditáveis 3842m de altitude da Aiguille du Midi! Por outro lado, ter um apoio operacional em viagens destas características pode-se revelar inestimável. Desde permitir ao grupo, por exemplo, planos alternativos, conforme motivos de interesse diferentes, até à ajuda em restaurantes, bilheteiras ou hotéis, a companhia adicional é sempre bem-vinda!


31.1.15

A beleza da ausência


De regresso à base, neste reca(n)to que nos é tão familiar, após quase 3 semanas dos permanentes e intensos estímulos sensoriais que a América do Sul sempre proporciona, encaixo-me lenta e - diria até - dolorosamente num ritmo social radicalmente diferente. Alvo de reflexão muito em breve, sem dúvida!

Mas por agora as costas viram-se ao por-do-sol e o olhar aponta a Leste, a um horizonte alvo, agreste, límpido. Dentro de poucas semanas estarei a caminho dos Alpes, para mais uma edição da viagem fotográfica Inverno nos Alpes, com um grupo Nomad. É a mais curta das minhas viagens, a mais "civilizada", e ainda assim rivaliza pelo primeiro lugar do pódio nas minhas preferências pessoais.



A montanha, como habitat, é para mim um território magnético, poderoso, telúrico. Sinto-me purificado, energizado, inspirado na sua presença. E a paisagem alpina é, por definição, o pináculo da maravilha da criação natural! Mas não é este o que me traz aqui hoje. É, isso, sim, a infinitude de oportunidades fotográficas que este cenário proporciona! E, em particular, num tema que me é particularmente caro: padrões e abstratos. A abstracção é um sujeito recorrente no meu percurso fotográfico. E um projecto de longo prazo, em contínuo, sem fim à vista. É a epítome da ausência visual...



A brancura da neve, o cinza bruto das escarpas graníticas, as nuances do bailado que as nuvens, neblinas e nevoeiros proporcionam, num jogo de toca-e-foge que o espectador pode experienciar por longas horas... Os Alpes são um gigante parque infantil para fotógrafos! Não há monotonia, não há falta de motivos, não há limites para a imaginação, criatividade, paixão que se pode colocar numa hora, num dia, numa semana de busca fotográfica! Gosto daquela (quase) ausência de preocupação com a técnica e, de forma diametralmente oposta, com o enfoque na experiência, na emoção, na acuidade visual. De não me limitar a olhar, mas procurar ver. De sondar o meu campo de visão, tentando decantar, num qualquer processo alquimico, a parte do todo.

Entrecortando estas linhas surgem imagens seleccionadas por um muito subjectivo e pessoal critério estético, realizadas nas minhas últimas duas viagens à capital mundial do montanhismo, Chamonix. Conto já os dias para o regresso, em finais de Março, com uma ponta de ansiedade que a vida de viajante profissional não conseguiu ainda totalmente erodir...


30.9.14

TATRAS: a montanha em estado puro


Já aqui falei em tempos dos Tatras: uma cadeia alpina com picos acima dos 2500m, dividida entre a Polónia e a Eslováquia (a maior parte das montanhas está efectivamente em solo eslovaco). O que as torna tão especiais? A (pequena) dimensão. E a fragilidade ambiental e cultural que se sente nas suas encostas verdejantes, paredes austeras e vales luxuriantes.




A face sul, na Eslováquia, é mais selvagem e agreste. Há menos pessoas, as infra-estruturas turisticas e desportivas são menos e mais espaçadas que na vertente Norte, na Polónia. O que realmente impressiona é a forma abrupta como se erguem na paisagem. E como, em poucos kilómetros, passamos da planície à alta montanha. Adoro a subida a Hrebeniok, e a surpresa já conhecida que aguarda o caminhante ao longo do Studeny Potok: cascatas em catadupa, um rio de montanha rugindo e rasgando a paisagem, rocha crua sob os nossos pés! Há alguns anos atrás um furacão arrasou estas encostas, partindo árvores de dezenas de metros de altura como se fossem frágeis palhas secas. Ainda hoje se vê a consequência: largas áreas nuas, com árvores muito jovens, observadas a crescer por solitários troncos secos, testemunho desse cataclismo pouco habitual na Europa. Numa das paragens sou surpreendido por uma velha conhecida: uma raposa afoita que, provavelmente habituada à comida que alguns caminhantes lhe dão, se aproxima de forma pouco habitual numa espécie furtiva.



Um pouco a Leste, o cenário muda radicalmente. Em vez de subir a montanha, desço-a. Até às suas entranhas, numa das mais espectaculares grutas deste maciço: Belianska Jaskinia. Perto de 1000 degraus, num sobe e desce impressionante por terrenos calcários, com as caracteristicas estalagmites, estalactites e curiosas formações rochosas...


Mas o expoente máximo da espectacularidade da paisagem estará talvez para lá da fronteira: Morskie Oko nunca pára de surpreender, com as suas águas de cambiantes azuis, cinzas e verdes sempre em mutação. Não me canso de aqui regressar, pela imponência do lago, das falésias, do Rysy, o mais alto pico polaco, do alto dos seus 2499m de altitude, erguendo-se orgulhoso e ostensivo acima do pequeno lago gémeo, Czarny Staw pod Rysami!



26.10.13

Sem fôlego


Ficar sem fôlego é uma expressão que pode ter mil interpretações, consoante as inflexões da dicção, o olhar mais ou menos sorridente, as pulsações do visado ou a frieza analítica dos efeitos fisiológicos associados, entre muitas outras variáveis. Para mim, refere-se sobretudo àquela sensação de imponderabilidade física e emocional perante um estímulo poderoso, intenso, incontrolável.

Na montanha, este estado é para mim comum. Nos Picos, quase constante. A paisagem é impressionante e a escala avassaladora. As cores claras da cordilheira calcária estendem-se ao longo de 3 maciços: Oriental, Central e Ocidental. O mais selvagem e inóspito é sem dúvida o Central, espartilhado, onde encontram refúgio os picos mais altos e onde a meteorologia faz, também, sentir-se com contorcionismos luminosos que em fugidios segundos transformam visualmente vales profundos e arestas cortantes.




Este ano o Verão esteve diferente. Por todo o lado a presença de neve contrariava o calendário. 2013 foi extremamente duro, com imensa neve até muito tarde e em locais que há décadas não se via tamanha acumulação da alva substância. E ainda que esta dificulte a progressão em alta montanha, fotograficamente acrescenta uma camada adicional de interesse e magia visual a que nós, portugueses, somos particularmente sensíveis. Aliás, um amigo meu, escocês, diz que somos o povo mais bizarro que conhece: quando na presença de neve, entramos em histeria colectiva, fazemos um boneco em cima do capot do carro e tentamos levá-lo o mais longe possível com recurso a uma mestria de condução cuidada que em qualquer outra ocasião renegamos visceralmente! Não foi o caso, mas podia ser! O nevoeiro, por seu lado, não se fez esperar, juntando-se à dança num bailado errante por entre as escarpas, ora mostrando ora ocultando o caminho. Até a chuva nos brindou durante estes dias, lavando e dando brilho à rocha, às folhas, à erva vivaz que rompe entre os calhaus.



Na minha última viagem, por ser feita a pé e com preocupações sérias com peso e conforto, optei por levar apenas uma máquina, a mais leve: Fuji X100s. Não é a ideal para fotografia de Natureza, por ser de objectiva fixa e por ter um pequeno-grande inconveniente: a assustadora falta de autonomia, o que, nalguns dias, obrigou a uma gestão criteriosa do "sumo" que cada bateria oferecia... Mas a flexibilidade do baixo peso e a permanente disponibilidade compensam as limitações, para além de a qualidade de imagem e das cores vibrantes serem também excelentes.

Desta semana, ficaram-me na memória instantâneos vários, nem todos concretizados fotograficamente, como o dos neveiros sobranceiros aos teleférico de Fuente Dé, a descida do Collado Pandebano até Bulnes, a Ruta Del Cares e, sem dúvida o ponto alto (figurativa e literalmente), a ascensão até ao Collado Hermonso e subsequente regresso a Fuente Dé, onde um delicioso chá gelado nos esperava como prémio merecido para 5 dias de caminhada!