16.5.17

Zulmira | pastora montanheira

O dia estava chuvoso. Sombrio, mesmo. O nevoeiro baixo tapava os cumes circundantes e fundia a linha de horizonte a poucas centenas de metros. Desafiando a meteorologia, subíamos encosta acima ao longo da Ribeira das Quelhas, uma das jóias escondidas da Serra da Lousã. À distância esperava-nos uma majestosa cascata, alimentada pela precipitação intensa dos últimos dias, numa Primavera ainda titubeante. Adiante, entre urzes e giestas encardidas pelas agruras do Inverno serrano, um ladrar intimidante começa a ouvir-se, cada vez mais perto, sem que o seu dono se deixasse ver.  De repente surge um robusto rafeiro a um par de metros. E em simultâneo uma voz feminina, firme, chama-o de volta!

Entra em cena Zulmira Henriques. Pastora do Coentral, a aldeia mais próxima, na boca do vale. Primeiro apenas a vemos ao longe, pouco mais que uma mancha de violeta contra os tons ocres da montanha desnuda, fustigada ano após ano por impiedosos incêndios. Ambos nos aproximamos, lentamente, não vá o cachorro duvidar das boas intenções fotográficas.

Os olhos azuis claros faiscavam à medida que nos contava a sua vida, faces rosadas do esforço da subida, com o entusiasmo de quem muito provavelmente falava com alguém pela primeira vez naquele dia: sempre havia vivido ali, tinha um pequeno rebanho de cabras, filhos espalhados pelo país, todos os dias eram passados na serra, alternando com o marido a tarefa do pastoreio e da ordenha, que acontecia ao entardecer. Não duvidei da dureza da sua vida, mas o encanto simples com que falava dela era enternecedor...

No seu casaco violeta até ao joelho, chapéu de chuva verde e gorro de lã clara havia em Zulmira uma elegância inata, uma aura que nem a idade nem a vida dura haviam apagado. Despedimo-nos de coração cheio, gratos pelo privilégio destes encontros fortuitos...


12.5.17

David | Artesão Andino


75 minutos. É este o tempo que um pequeno lama de rocha negra leva a criar, do nada até à sua forma final, ícone da cultura andina em formato compacto.

Tudo começa com um assobio. Mais que um assobio, uma brisa melodiosa chega-me aos ouvidos, de origem incerta. Aproximo-me, intrigado. Escuto deliciado, envolvido por todas as emoções que me invadem num dos mais especiais locais de La Paz, a capital não-oficial da Bolívia - o miradouro Killi Killi. Subtilmente, debaixo de um chapéu de aba larga, desbotado pelo sol inclemente dos Andes, um par de lábios em movimentos delicados denuncia-se.



Aproveitando uma curta pausa nesta improvável sinfonia de um homem só, apresento-me. Escuto um - David, placer!, curta resposta embrulhada por um olhar brilhante do meu interlocutor. Pergunto, com interesse genuino, que material é aquele que se move de forma fluída nas suas mãos.
- Basalto, responde.
- E quanto tempo leva a fazer? 
- Una hora e quince minutos, las pequeñas. Arregalo os olhos de espanto e de admiração pelo engenho deste paceño! A beleza simples de tão minusculos objectos, saindo das mãos deste homem de forte presença, que assobia de forma tão bela, faz-me sentir humilde...



11.5.17

Killi Killi

Killi Killi.

Apesar de se encontrar no coração de uma das mais caóticas metrópoles da América do Sul, com má fama provavelmente imerecida, encarrapitado no alto de uma das suas favelas, o local nada de sinistro tem. Tem, sim, uma vista de cortar a respiração. Mostra, sim, uma cidade impossivelmente construída em encostas arenosas. É vigiado, sim, pelo Illimani, o segundo pico mais alto da Bolívia, nevado, à distância, orgulhoso no alto dos seus 6462m.

Meia dúzia de pessoas ciranda por ali: um par de pombinhos adolescentes, visivelmente apaixonados, amassa-se sem cerimónias, num dos bancos de ferro forjado; três japonseses tentam à exaustão encher a máquina fotográfica com fotos em rajada; um polícia de olhar enfadado enche o peito numa tentativa vã de mostrar quem ali manda, sem que ninguém pareça notar na sua presença.


Largos minutos se passam neste deleite, a vista espraiando-se pelo horizonte aberto, enquanto a brisa fresca da montanha provoca pequenos arrepios na pele nua. O sol deixa-se tombar dolentemente por detrás das encostas amareladas do caldeirão natural em que a cidade explodiu, enquanto os glaciares do gigante refulgem os últimos raios solares, num estertor inconsequente, antes da chegada da noite límpida, que se aproxima. Um quoisque de rua ganha tons glamourosos, com as suas lâmpadas de tungsténio e uma multitude de bens que ninguém parece comprar.

É para mim um dos mais especiais locais do epicentro boliviano, pleno de carácter, charme e nostalgia...


8.5.17

A chicha de Freddy Almiron


Não. A chicha de Freddy Almiron nada tem a ver com carne!

Comecemos pelo princípio: chicha é uma bebida fermentada muito popular no Peru, cuja origem remontará pelo menos ao Império Inca, produzida e consumida essencialmente pelas comunidades indígenas. Embora pouco alcoólica dizem que o seu consumo em grandes quantidades tem... consequências!



Na minha última visita ao Peru tive um par de horas livres em Ollantaytambo, a cidade de acesso a Machu Picchu. É uma das localidades com traça mais original do Vale Sagrado, com bastantes vestígios urbanísticos do período Inca e embora seja muito turística na praça central e na zona das ruínas, muda radicalmente assim que nos embrenhamos pelas ruelas simétricas e apertadas, à medida que o bulício dos gringos fica lá longe. De repente passo por um portão entreaberto, que deixa adivinhar um pátio caótico cheio de gente, crianças e graúdos. O instinto fotográfico foi entrar... mas era um espaço privado, faltava uma motivação plausível. Dei ainda meia dúzia de passos até me aperceber que do muro pendia um saco de plástico colorido - sinal de venda de chicha! Aí está! Rapidamente voltei atrás e ganhei coragem para o mergulho! Assim que entrei, um mundo de sorrisos surpresos por ver um estrangeiro naquela zona da cidade. 1 sole por um copo da cerveja tradicional peruana, tirada de um gigantesco bidão azul, para um copo que talvez nos primórdios dos tempos tenha sido lavado...! O que não mata, engorda, convenci-me. Ao fim de uns minutos de conversa com o patriarca, Freddy Almiron, descobri que tínhamos mais em comum do que poderia supor: ele trabalhava em Machu Picchu, como guia, e era muito interessado e informado do que se passava na Europa. A máquina fotográfica, essa, não demorou a ser solicitada pela criançada. E a impressora instantânea Fuji Instax fez a sua magia - daí para a frente tive amigos para a vida. Fred, com 4 anos, filho do meio de Freddy, foi buscar o seu Picachu de estimação e insistiu que o fotografasse! Até a pequena Yazuri, sua irmã, com apenas 6 meses, colaborou! Ao final, foi a própria família que me pediu para fazer um retrato. Adoro quando a fotografia se torna uma ponte cultural, ao invés de uma barreira. Quando a curiosidade é mútua e ambos os lados dão e recebem algo em troca tudo está em harmonia!




O comboio e a responsabilidade de levar um grupo a concretizar um dos sonhos maiores de vida, no dia seguinte, aguardava-me. Foi o tempo certo para um contacto fugaz mas permanente no meu imaginário. Para o mês que vem lá estarei, oxalá surja de novo a oportunidade para dois dedos de conversa e uma chicha com o Freddy!


Pause. Play.


Sim, foram longos meses de ausência. Mas não de abandono. Outros focos, outras prioridades foram fazendo com que este blog tivesse entrado num hiato, numa hibernação da qual eu queria sair mas que fui adiando. Expectativas demasiado elevadas impostas por mim próprio acabaram por me levar a não o sustentar e alimentar da forma que tinha imaginado e idealizado. Por isso parei. E por isso agora retomo, num formato que prevejo diferente: micro-histórias, textos curtos, com a periodicidade que a inspiração e a vontade me trouxerem, sem sentimentos de culpa, por vezes apenas sobre uma única imagem, uma personagem singular com que me cruze, mais focadas nas pessoas com que tenho o privilégio de conviver, ainda que algumas vezes apenas por escassos minutos, instantes vivenciados nas viagens que preenchem os meus dias, sejam elas viagens mais distantes ou menos distantes, mais exóticas ou mais mundanas... 

Quiçá esta também seja uma evolução da minha fotografia. Menos urgente no dia a dia, mais pausada, mais humilde... mas não menos presente. Os processos criativos nunca são lineares. São mais uma longa escadaria. Ou talvez melhor diga uma tortuosa montanha russa em que os altos e os baixos se sucedem e por vezes nos colocam os (poucos) cabelos em pé, estarrecidos tanto pela adrenalina como pela inércia...

É um gosto estar de volta.



29.1.17

Exposição Crónicas da Atlântida | Coimbra

A exposição Crónicas da Atlântida rumou à minha terra natal e estará patente ao público no Museu Municipal de Coimbra de 29 de Janeiro a 19 de Março 2017.

Mais uma paragem destas 37 fotos, com que represento ao meu olhar cada uma das 9 ilhas açorianas, legendadas por pequenas histórias das personagens que retratam.

Entrada livre.
De 3ª a 6ª feira das 10:00 às 18:00 | Sábado e Domingo das 10:00 às 13:00 e 14:00 às 18.00. Encerra à 2ª feira e feriados. 


Mais em www.cronicasdaatlantida.org

30.4.16

Exposição Crónicas da Atlântida | Lisboa


Após a palestra no Porto, as Crónicas da Atlântida rumaram à capital, com a exposição do projecto Crónicas da Atlântida, que estará patente de 6 de Maio a 5 de Junho na Lx Factory, no 2º piso do edifício do CoWork.

São 37 fotos das 9 ilhas açorianas, acompanhadas das pequenas histórias associadas a cada uma das imagens.

Entrada livre | Diariamente das 07h00 às 02h00 |

Mais em www.cronicasdaatlantida.org

31.3.16

Palestra Crónicas da Atlântida | Porto



Após dois anos de viagem pelas nove ilhas açorianas em busca do quotidiano das gentes do arquipélago, acompanhado pela máquina fotográfica, inicia-se amanhã, dia 1 de Abril (não é mentira!) um novo ciclo do projecto Crónicas da Atlântida. No Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto, na Praça dos Leões, bem no coração do centro histórico da Invicta, pelas 21h00, estarei à conversa em discurso directo sobre o que significou para mim este projecto - o que vi, o que vivi, o que senti. E o que fotografei. A primeira NomadTalk de 2016

Iremos percorrer visualmente muitas imagens até agora inéditas, viajando pelos verdes picos que alguns dizem ser da Atlântida afundada. Partilharei com o público os tesouros que encontrei e as estórias de vida de inúmeras personagens extraordinárias, com vivências ímpares, que me deixaram sem dúvida mais rico, mais humilde, mais completo.

Enche-me um profundo sentimento de gratidão às gentes dos Açores. Se era já um convertido, apaixonei-me ainda mais por este território mágico. Obrigado a todos!

E todos estão convidados para a palestra!

1 de Abril | 21h00 | Praça Gomes Teixeira (Leões) | Entrada livre

O projecto Crónicas da Atlântida foi possível graças ao apoio da Bolsa de Exploração Nomad e da National Geographic Portugal

14.2.16

Crónicas da Atlântida - fim e principio

Sim. Fim e princípio.

Não. Não me enganei na ordem. As Crónicas da Atlântida chegaram a um fim. E simultaneamente a um novo princípio.

Ao fim de dois anos de trabalho de campo e mais de uma dezena de viagens ao arquipélago, completei a captação de conteúdos para o projecto. É um momento de reflexão, de parar para olhar para a jornada até aqui vivida e, após essa pausa, de forças retemperadas, olhar para a segunda fase, tão ou mais importante: a comunicação deste projecto e a produção dos seus outputs.


Nos últimos nove meses - de Maio de 2015 a Janeiro de 2016 - a página do projecto foi sendo completada diariamente, ilha por ilha, da maior para a mais pequena, de Oriente para Ocidente. São 276 fotos no total, que têm como objectivo espelhar a minha perspectiva pessoal do quotidiano de cada uma das ilhas, mostrando aquilo que um viajante curioso pode encontrar nos Açores. Para além das paisagens deslumbrantes, cenário de um argumento filmado em câmara lenta, a ritmo próprio, as suas gentes são os actores principais, foco da minha atenção, admiração e respeito. E foi nelas, em quase sofrimento por secundarizar voluntariamente o entorno, mas mantendo-o debaixo de olho, como pano de fundo significante, que a minha objectiva se focou. Só eu conheço a riqueza interior que deste arquipélago trouxe! Procurei que tais experiências humanas, pessoais e emocionais transparecessem para o registo documental que lá me levou. Que as fotografias, com toda a sua frieza bidimensional, ganhassem vida por artes mágicas e transmitissem ao espectador pelo menos uma parte do que vivi! Sinto-me um privilegiado – pelo que senti, pelo que vi, pelas portas que me foram abertas, pelas horas de conversas, por vezes silenciosas, que me foram ofertadas. Foram viagens em carrinha de caixa aberta, face ao vento, a ouvir estórias de baleeiros! Foram saídas para o Atlântico em frágeis cascas de nós a quem os pescadores chamam casa! Foram jornadas a vindimar de costas contorcidas, a arrebanhar manadas de vacas por encostas íngremes, a feirar sob copiosa chuvada, tardadas a correr à frente de touros, caminhadas em busca de burros autóctones, lancharadas de porco no espeto para comemorar sucessos de outrem e rezar por futuros alheios... E tanto, tanto, tanto mais! Cada ilha com as suas particularidades, cada calhau, como alguns lhes chamam, com uma alma comum, uma açorianidade que alguns não vêm, outros muito discutem, mas que se sente, se entranha a cada chegada, a cada partida!





Sinto os Açores como minha casa. Minha segunda casa. Em cada ilha poderei regressar e ser acolhido por sorrisos conhecidos. Já antes tinha visitado as nove ilhas. Regressei a todas. Regressarei. Como quem regressa a um lar há muito abandonado. Há muitas vidas atrás...




As Crónicas foram um dos mais longos e intensos projectos fotográficos pessoais que empreendi ao longo da minha carreira enquanto fotojornalista. Em que o foco, tempo, recursos e esforço empreendidos foram maiores. Com empenho renovado, inicia-se agora uma nova etapa. Ao longo de 2016 suceder-se-ão diversos eventos: exposições fotográficas, a produção de um slideshow multimedia, palestras nas principais cidades do país, culminando na publicação de um livro fotográfico, cujos textos serão também eles assinados por mim. É um novo princípio, em que a presença virtual se reduz para dar espaço às iniciativas de carne e osso. Para elas espero poder contar com a vossa presença, para que me seja dada a oportunidade de partilhar esta minha paixão. E para que dúvidas não restem, hoje, neste dia que alguém disse ser dos namorados, renovo a declaração de amor a este território tão peculiar, que há 25 anos trago no coração...

Adoro-vos, Açores!



E um profundo agradecimento a quem esteve desde a primeira hora com este projecto, tornando-o possível: 

29.1.16

Bolsa de Exploração Nomad



Acaba de ser lançado um projecto impar em Portugal: a Bolsa de Exploração Nomad. Criada com o intuito de apoiar projectos de viagem e descoberta que, de outra forma, dificilmente veriam a luz do dia, nasce direccionado para uma comunidade que vai lentamente crescendo em Portugal mas que muitas vezes se depara com as dificuldade mundanas de falta de fundos. É a concretização de um sonho antigo das mentes por detrás da Nomad.pt, agência de viagens-aventura com que colaboro desde 2011 e com que uma boa parte dos leitores deste blog estará familiarizada.

São 5 as categorias a que os candidatos, com mais de 18 anos e com nacionalidade portuguesa, podem submeter as suas propostas:

-       Conservação de Natureza
-       Turismo Responsável
-       Exploração Global
-       Narrativa de Viagem
-       Auxílio Humano

O processo de candidatura passa por uma apresentação do conceito em vídeo e o valor a distribuir ascende a €10 000 anuais, a atribuir a um ou mais projectos, consoante a pertinência e necessidades, avaliadas por uma equipa ligada à Nomad e à sua comunidade.

Embora noutros moldes, os projectos da travessia da Amazónia, que fiz com os colegas Tiago Costa, Eduardo Madeira e Inácio Rozeira, e as Crónicas da Atlântida, cuja vertente online terminou há dias e se prepara para começar uma nova fase, mais física e menos virtual, beneficiaram já deste fundo. Agora que o mundo da imprensa de viagens se eclipsou, em que quase se pede aos profissionais para pagar para publicar conteúdos de viagem, em que viajar se tornou mais fácil mas, por outro lado, os recursos escasseiam, esta é uma oportunidade a não perder por todos aqueles que sentem a urgência da viagem e que perseguem o ideal de criar um impacto positivo na sociedade.


Boa sorte aos candidatos!

1.1.16

Crónicas da Atlântida | Mês 9 | Corvo


Novo ano, nova ilha! 

As Crónicas da Atlântida estão a chegar à sua última, mais diminuta, mas talvez mais enigmática ilha: o Corvo! Com uma população de 430 pessoas, uma única localidade, uma única estrada, uma escola e o único local do país em que não existe Junta de Freguesia, mostra uma tendência demográfica rara na Europa: crescimento! Contra as expectativas, o quotidiano aqui é surpreendentemente preenchido: actividades desportivas, eventos musicais, pesca, praia e até concertos de música ao vivo têm lugar com uma frequência insuspeita. E nada, mas nada mesmo, pode descrever a sensação de silêncio e paz que o ocaso traz, com a segurança de que amanhã será outro dia, algures no meio do Atlântico, algures a meio caminho entre a Europa e as Américas...

São as últimas 31 fotografias de um total de 276, publicadas diariamente ao longo dos últimos 9 meses em www.cronicasdaatlantida.org

Powered by Bolsa de Exploração Nomad + National Geographic Portugal

1.12.15

Crónicas da Atlântida | Mês 8 | Graciosa

Caminhando a passos largos para o final, as Crónicas da Atlântida chegam em Dezembro àquela que talvez seja a menos conhecida das ilhas dos Açores: a Graciosa. Na sombra da Terceira, fora do Triângulo, fica, no inverno, dependente das ligações aéreas para a comunicação com o mundo exterior. Outrora o celeiro do arquipélago, é uma ilha altamente produtiva, em que a orografia suave e a baixa altitude facilitam o estabelecimento de uma presença humana proporcionalmente elevada: com pouco mais do triplo da área do Corvo, tem uma população dez vezes maior!

Galeria actualizada diariamente em www.cronicasdaatlantida.org

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20.11.15

Gente colorida


Cor!

Adoro cor na minha vida. Adoro gente colorida. Adoro espíritos folclóricos. Adoro fotografar a cores! No inverno então, a cor é um refrescante bálsamo para as sombras cinzentas que, subrepticiamente, nos cavalgam de tempos a tempos. Embora algo distante, há um tipo de local onde ela faz verdadeiramente parte do quotidiano, é visível em cada esquina, em cada paisagem, em cada corpo: a estação de ski! De todas as que conheço, e porque lá tenho regressado regularmente nos últimos anos, Chamonix tem um lugar especial no meu coração. De cada vez que chego, é como se entrasse de chofre numa daquelas lojas de tintas que anunciam fenomenais misturas cromáticas, numa explosão de 10 000 cores diferentes! 

A mescla entre a Natureza agreste dos Alpes, que espartilha com as suas encostas brancas e empinadas a malha urbana da cidade, epicentro de uma vivência única do espírito de montanha, é o cenário improvável para este desfile de cor e forma. Skis, calças, casacos, blusões de penas, gorros, luvas, botas, pranchas, tudo serve para uma afirmação de estilo que choca com o cinzentão paradigma a que, na maioria das vezes, sou exposto em Portugal. Decidi portanto compilar alguns desses splashes de cor, resultantes de três viagens à capital do alpinismo mundial.



E claro que a forma não poderia deixar de ser um íman para alguém que, como eu, vive da imagem. Há uma atracção telúrica para o belo, para o que me excita o olhar, sobretudo quando um lado selvagem está presente. Mas vai mais fundo: na montanha há um código implícito de conduta que foge, amiúde radicalmente, às normas. A assunção do risco – seja em vertiginosas descidas freeride na neve virgem, seja em ascensões que desafiam os sentidos a picos inóspitos ou em escaladas cruas de rocha vertical – rompe sempre com algo de instituído. E isso seduz-me. Fotográfica, mas sobretudo emocionalmente...


4.11.15

Crónicas da Atlântida | Mês 7 | Flores



Em Novembro chegaremos ao território mais a Oeste da Europa: o grupo Ocidental do arquipélago dos Açores. As Flores, conhecidas pelas suas inúmeras cascatas de água e incomparável vegetação luxuriante receber-nos-ão, num misto de insularidade extrema, bruma atlântica e brilho humano.


São as Crónicas da Atlântida percorrendo uma geografia onde as lendas e as estórias de viajantes antigos se contam ao vento, que hoje se debate com uma desertificação galopante, onde novas comunidades de estrangeiros se formam e onde, mais do que em qualquer outro lugar, o isolamento se entranha, nas gentes, no sentir quotidiano. Ali, em ligação umbilical com o Corvo, ilha irmã, há que se valer por si próprio. O barco pode não chegar. E o avião aterrará... não se sabe bem quando.

Mais em www.cronicasdaatlantida.org

3.11.15

Por entre as sombras



Como qualquer português, o meu legado cultural passa inevitavelmente pela herança judaico-cristã, na qual fui educado e que, mesmo para os católicos não-praticantes, representa uma forte baliza de valores, referências e princípios. Religiões à parte - que, em demasiadas situações ao longo da história mundial, estiveram ao serviço da ganância cega e da sede de poder - há algo de profundamente místico em muitos templos, sejam eles de que credo forem, em que zona do globo seja. Há alguns meses atrás, referia exactamente isso num texto, a propósito da minha mais recente visita a Istambul.

Desta vez foi em Viena. Nas deambulações mais ou menos errantes pela cidade das valsas, não foi na Ópera que me foquei. Foi, entrando ao crepúsculo e saindo já noite fechada, na catedral de St. Stephens (ou Stephansdom, em alemão), uma das mais imponentes silhuetas do skyline da capital austríaca. Sede da Igreja Católica no país, a sua origem remonta ao séc. XII, construída em estilos romanesco e gótico, com um impressionante telhado multicolor e de agulhas apontadas ao céu, atingindo os 136m de altura no ponto mais alto! Foi aqui que muitos dos grandes eventos da história europeia ocorreram, sendo igualmente o epicentro da poderosa dinastia Habsburg.




No entanto, para além de toda a imponência exterior e dos pergaminhos históricos que representa, foi no seu interior que me senti mais impressionado. A escuridão imperava e, estranhamente em locais turísticos, e apesar das largas dezenas de pessoas que circulavam lentamente pelos corredores, havia silêncio. As velas, bruxuleantes, emprestavam uma ambiência etérea ao espaço. Alguns rostos, em oração, fechados, solenes, eram intermitentemente iluminados pelos laivos dourados o pavio em chama. Num canto, um miúdo de telemóvel em punho fazia experiências fotográficas com o cenário, quase cinematográfico.

O jogo de luz e sombra só pode ser descrito como magistral - imagino o quão aterrador seria para os crentes da Idade Média aqui entrar, esmagados pela escala, pelo olhar petrificante de um Cristo torturado e ensanguentado, pela palavra irada de bispos e cardeais, pelo terror das provações do inferno e a miragem prometida do paraíso... Se hoje é tão fácil manipular consciências de multidões, nesse tempo ainda mais! Percorro, com atenção, e com a magicamente silenciosa X100s discretamente em punho, a longa nave, olhando o chão geometricamente disposto, em tons de branco e negro, intercalado pelas enormes colunas de pedra, torneadas, brilhantes, enquanto escuto os meus próprios passos. Há algo de espiritual, ali. Que ultrapassa, de longe, os mundanos e imperfeitos assuntos da política religiosa...

Saio. Para a noite escura, para as luzes de néon, para as montras das lojas de luxo. Meia dúzia de passos e o mundo mudou.

22.10.15

A Sissi já não mora aqui


Quem já viajou comigo em grupo sabe que, ao visitar uma cidade com tempo limitado, privilegio a vivência quotidiana a um siteseeing frenético. Sinto que deambular pelas ruas de uma cidade é muito mais enriquecedor que enfiar-me em museus (por muito interessantes que sejam) ou aguardar em filas intermináveis para visitar as principais atracções turísticas locais. Adoro sentar-me num banco de uma praça ou em qualquer esplanada com vista para a cidade, observando, parado, o bulício que por mim passa.




Haverá um certo voyeurismo nesta postura, admito. Mas ainda hoje me recordo de duas tardes que passei na Porta de Almedina, em Coimbra, em reportagem para um artigo sobre Afonso Henriques, para a National Geographic. Como marcar uma reunião com a personagem se revelou assaz difícil, resolvi investir numa metáfora, passando largas horas a observar e fotografar o quotidiano de um dos últimos vestígios da sua época na estrutura urbana da antiga capital portuguesa. E, ao fim de algum tempo, apercebemo-nos de um ritmo próprio, de gente que vai e vem - os turistas, os estudantes, os idosos, os mafiosos, os imigrantes, os profissionais, os moradores - toda uma fauna humana de cuja vivência eu nunca me aperceberia se não tivesse tomado o tempo certo para observar. E isso reflecte-se na fotografia. Oportunidades há das quais apenas tomamos consciência quando dedicamos tempo e foco a um tema, um local, uma ideia...
De uma outra vez, na primeira de muitas viagens que fiz a Marraquexe, abanquei durante horas, literalmente, num dos múltiplos restaurantes desmontáveis da Djemma El Fna, a mítica praça central da cidade marroquina. Escolhi um de esquina, virado para o enorme vazio que se estende quase até à Koutobia, cuja silhueta se ergue ao fundo, contra o sol incandescente do ocaso, com laivos de fogo emprestados pelo deserto, ali tão perto... E deliciei-me com o infindável, exótico e inebriante espectáculo de cor, forma, movimento, som e cheiro que diante dos meus olhos incrédulos se desenrolava!


Regressando ao presente, Viena foi a minha mais recente experiência de viver a rua. Cidade icónica da cultura centro-europeia, revelou-se para mim uma descoberta tranquila, sem sobressaltos. Guiado por um estrangeiro, tive o privilégio de percorrer as suas velhas avenidas e centenários parques acompanhado por quem os havia conhecido apenas recentemente, com um olhar ainda fresco e deslumbrado. Gostei da forma como o povo usufrui dos espaços públicos, como a ordem germânica é aqui posta ao serviço do bem comum: esplanadas, ruas pedonais, ciclovias, jardins, bancos... Não é a meteorologia a ajudar, isso é certo. É, sim, a atitude. Quanto aos museus, que sei deslumbrantes, a ópera, que dizem inolvidável, e o palácio da Sissi, que apenas vi por fora... terão de ficar para uma próxima!

15.10.15

Mirando duas rodas... ao som de Strauss


Percorrer a capital austríaca a pé é um regalo para os sentidos. Não tive muito tempo lá, mas um bom amigo brasileiro, que havia conhecido anos atrás num encontro fotográfico no Brasil, tratou de o rentabilizar ao máximo! Obrigado, Luiz! Mas voltarei a esse tema num próximo post. Porque, para um aficcionado da bicicleta como eu, foi quase com inveja que cirandei entre tanto velocípede, entre tantos cidadãos que escolhem um meio de transporte social e ambientalmente responsável, fazendo-no com uma naturalidade que apenas parece natural entre os povos do Norte.

Claro que urbes planas ajudam e que, por outro lado, inclinações não são um obstáculo insuperável. Basta atentar à recente vaga ciclista a que em Lisboa e mesmo Porto se assiste, cidades geograficamente desafiantes. A liberdade de movimentação que proporciona é algo que só experimentado se compreende. O trânsito basicamente desaparece, os atalhos surgem a cada esquina ou viela, a brisa sente-se em permanência, o coração bomba, pujante, agradecendo a gentileza aos pulmões, ao mesmo tempo que os músculos se retesam e descontraem, alternadamente, sincopadamente...



Naturalmente não há bela sem senão. Para além do esforço físico, mais crítico em climas quentes - como o nosso - e em territórios irregulares - como os nossos - que pode levar o ciclista a chegar completamente suado ao local de trabalho ou ao encontro romântico, existe a infeliz cultura do automóvel como rei e senhor nas nossas estradas. Raramente existe planeamento urbanístico que contemple o uso do velocípede, as ciclovias estão cheias de gente a passear a pé ou com carrinhos de bebé e poucos automobilistas hesitam em buzinar alarvemente se alguma bicicleta ousa incomodá-lo na faixa de rodagem (que é o lugar dela, não no passeio nem a 5cm do lancil)!


Mas, regressando a Viena, as primeiras horas da minha curta estadia deixaram-me efectivamente a desejar poder fazer assim em casa. É um meio de transporte verdadeiramente democrático. Acessível a todos. Sem excepção! E isso dá-lhe um encanto a que não consigo resistir. Dei por mim, até, a dar uma segunda olhada para as vintage single speed! Como são belas, elas! Maiores ou mais pequenas, sóbrias ou exuberantes, minimalistas ou tecnológicas, claras ou escuras, cuidadas ou negligé, nuas ou artilhadas, há-as para todos os gostos!...

Regressado a casa, resolvi fazer com algumas destas imagens experiências no pós-tratamento com presets do Adobe Lightroom, em que ao contraste é dado um enfoque particularmente forte. Em breve dedicarei um post específico a este tema, usando a técnica em retrato, no qual o resultado é ainda mais dramático. Por agora me vou. A pé. À falta de bicicleta... à mão.