3.11.17

6088m


Pelas 6:40 do dia 4 de Julho de 2017 chegava ao topo do pico Huayna Potosi, na Bolivia. 6088m acima do nível do mar. A esta hora a noite estava ainda cerrada, apenas no horizonte Leste, por cima da selva amazónica, se adivinhava o dealbar do dia. Os -15ºC mal se faziam sentir, os ventos fortes que me acompanharam ao longo de quase toda a subida haviam cessado, como que por magia! À medida que a luz ia enchendo a metade oriental do meu campo de visão a neve ganhava cores indescritíveis, desvendando formas na montanha que não havia visto ainda hoje. A ascensão começara as 1:30, após quatro horas de sono entrecortado, entre o efeito da altitude e a ansiedade pela subida.

Às 23:30 acordava e o vento lá fora assobiava por entre as placas mal montadas do refúgio, ameaçando entrar porta adentro. Pouco tranquilizador para quem duvidada das condições climatéricas. Não voltei a adormecer. Resolvi sair, enfrentar a visão dantesca do gigante branco. A lua, num quarto crescente já avançado, iluminava como se dia se tratasse, reflectindo na neve a sua luz tranquila. À parte o vento, nada mais se escutava.

O campo alto - um refúgio básico, a 5130m de altitude - é a base para o ataque à montanha. 4 a 5 horas de subida, 2 de descida. À medida que as hostes vão acordando, espaço apertado mais parece uma torre de Babel - gente de muitos pontos do globo congrega-se aqui, com o olhar brilhante e garganta seca, sensações comuns em pessoas tão diversas. Nem todos chegarão ao pico, mas estar aqui já é por si só uma conquista!




Com o Teo, meu guia e parceiro nesta empreitada, a quem agradeço e com quem partilho o mérito sa ascensão, preparo-me. A escolha de roupa é fulcral. Demais será um peso e provoca sobreaquecimento e suor, que depois arrefece rapidamente; e pouca arrisca exposição ao frio considerável que se sente no topo. Muita água é fundamental, mantimentos calóricos e, claro, folhas de coca em abundância! Em Roma sê romano!

A subida inicia-se então, a passo lento. Muito lento. Apesar de já ter realizado algumas outras ascensões com idêntico desnível em alta montanha (1000m de desnível positivo), nunca o tinha feito a esta altitude. E embora já estivesse acima dos 3500m há mais de duas semanas, chegando aos 5000m no deserto do Uyuni, não sabia como reagiria o meu corpo ao esforço e sobretudo à altitude. Rapidamente percebi: ainda que com 3 dias de aclimatação, as dores de cabeça intensas depressa se fizeram anunciar.

A certa altura seria-me a caminhar como um zoombie, e receei tropeçar ou sair do caminho - algo fatal nalgumas zonas do percurso! Fui parando, a cada 45 minutos. Não mais de 2 ou 3 minutos de cada vez, para não arrefecer ou perder o ritmo. A certa altura, estaquei. Olhei o Teo nos olhos e confessei que não sabia se estaria em condições de fazer a subida. Ele pôs-me a mão no ombro e com uma suavidade na voz que senti como um toque de magia e que agora me humedece o olhar, disse: "Tu consegues! Eu sinto-o. É normal sentires-te assim, é a altitude. Estamos quase lá." Que há anjos, nunca duvidei. Mas vê-los é raro. Sentir o seu toque ainda mais! Este foi um desses momentos.

O "quase lá", no entanto, eram quase 200 metros em altitude, e a parte mais exigente da ascensão. Uma parede de neve e gelo erguia-se à nossa frente. Só de dia veria a sua total dimensão - e ainda bem!!! Mas pela exigência física e técnica a adrenalina explodiu e de repente todos os sentidos estavam despertos! Os últimos 100 metros foram quase feitos na vertical, crampons espetados de frente, piolet usado para subir o peso do corpo, atenção plena em cada movimento.



A subida ao Huayna Potosi não é tecnicamente difícil (pelo menos quando feita pela rota normal). Há quem diga até que é o 6000 mais acessível do mundo (não sei, nunca subi a nenhum outro). Para mim, era um objectivo que me aliciava há anos, de cada vez que vinha à Bolivia com grupos Nomad, bem visível desde La Paz, isolado, sedutor. A par do Caminho de Santiago, 250km e 9 dias de êxtase e dor que percorri em Março, foi dos maiores desafios pessoais a que me propus.

Não foi o troféu da montanha que me levou a tentar a subida. Esse de pouco ou nada serve. Foi, isso sim, a decisão de fazer algo que nunca tinha feito. De me testar, de ver até onde podia ir, de me questionar e ir para além da minha zona de conforto, expandi-la e, quiçá, voltar de lá maior e mais forte. Interiormente. E não poderia ter tomado melhor decisão! A chegada ao pico, ainda de noite, com as cidades de La Paz e El Alto iluminadas, ao longe, pareceu-me inverosímil. Senti-me fora do meu eu. Como um espectador de mim próprio, do cenário onde me encontrava. Senti uma paz, uma energia, uma plenitude que poucas vezes na vida havia experienciado. A última das quais à chegada a Santiago de Compostela, igualmente de corpo vergado mas de espírito erguido, vertical. Naqueles instantes nada mais importava. Estava absolutamente absorto no agora. Aqui e agora. E como é bom!!! Como nós devíamos focar mais em experiências deste género, implicando ou não desafios físicos!

No próximo domingo tentarei terminar o último e porventura mais difícil dos 3 objectivos a que me propus à entrada dos 40: correr uma maratona. Tal como no Caminho de Santiago como na subida ao Huayna Potosi é o processo que me interessa, mais que o (eventual) sucesso da empreitada. Não é garantido. Mas tudo farei para lá chegar.


8.6.17

El Cordano



El Cordano. Tasca de presidentes, ministros e conhecedores da malha urbana de Lima.
Encostado ao Palácio Presidencial, sem sinais exteriores de maior, numa esquina cinzenta, o bar-restaurante tem um charme único, como se numa viagem no tempo nos mergulhasse.

O balcão ganha um destaque especial - a madeira escurecida por anos de alcool derramado é polida pela pele dos braços não menos curtidos dos funcionários, também eles verdadeiras relíquias do espaço.

O ceviche não pode faltar a quem queira sentir os verdadeiros sabores peruanos, incluíndo o inevitável esgar facial, provocado pelo sumo de lima, acre, uma afronta às papilas gustativas rapidamente apreciada. Para acompanhar, duas opções nativas - cerveja Cusqueña, com a icónica silhueta de Machu Picchu na carica; ou Inka Kola, um refrigerante amarelo, muitissimo apreciado no Peru, que redefine tudo o que pense saber sobre artificialidade de sabores! A cereja em cima do bolo é o suspiro a la limeña, sobremesa característica da capital, verdadeira bomba calórica mas que nos adoça a boca e a alma!

Imperdível!

31.5.17

José | Pescador do Dão



Para a maioria dos portugueses, Dão é uma conjugação verbal ou um vinho. Na verdade a região demarcada do Dão toma o nome de um pequeno rio, que mais pequeno se tornou com a construção da barragem da Aguieira, nos final dos anos 70 na zona onde os concelhos de Penacova e Mortágua se tocam. Subindo rio acima e deixando a água mansa da albufeira, um rio rebelde ganha forma. Contorcendo-se entre enormes blocos de granito arredondados pela força das águas, as praias de areia grossa vão-se sucedendo, desvendando aqui e ali verdadeiros mini-paraísos naturais.


Há poucos anos uma obra digna de reconhecimento veio dar uma nova vida a esta zona: a Ecopista do Dão - a maior de Portugal, com 49km de comprimento, entre Santa Comba Dão e Viseu - aproveitou uma via férrea desactivada e substituiu os carris por piso ideal para ciclar. A pé ou de bicicleta, é por si só um programa perfeito para amantes da Natureza. E foi de bicicleta que vim a conhecer uma personagem do rio: José Coelho, pescador nas horas vagas, reformado.

Quando cheguei, estava tranquilamente sentado numa enorme laje de rocha. A pescaria não era grande, mas a vontade de conversar sim. Sem pressas, como convém a um pescador que se digne do nome, contou-me tudo o que havia a saber sobre barbos, carpas e pimpões, e ainda sobre muitos assuntos da sua longa vida... a ida para a capital, a idade, os incêndios, política... A pausa tinha de ser curta, porque muitos kilómetros me esperavam para "O FIM", mas estes instantes souberam-me como um bálsamo numa primaveril e soalheira manhã!


16.5.17

Zulmira | pastora montanheira

O dia estava chuvoso. Sombrio, mesmo. O nevoeiro baixo tapava os cumes circundantes e fundia a linha de horizonte a poucas centenas de metros. Desafiando a meteorologia, subíamos encosta acima ao longo da Ribeira das Quelhas, uma das jóias escondidas da Serra da Lousã. À distância esperava-nos uma majestosa cascata, alimentada pela precipitação intensa dos últimos dias, numa Primavera ainda titubeante. Adiante, entre urzes e giestas encardidas pelas agruras do Inverno serrano, um ladrar intimidante começa a ouvir-se, cada vez mais perto, sem que o seu dono se deixasse ver.  De repente surge um robusto rafeiro a um par de metros. E em simultâneo uma voz feminina, firme, chama-o de volta!

Entra em cena Zulmira Henriques. Pastora do Coentral, a aldeia mais próxima, na boca do vale. Primeiro apenas a vemos ao longe, pouco mais que uma mancha de violeta contra os tons ocres da montanha desnuda, fustigada ano após ano por impiedosos incêndios. Ambos nos aproximamos, lentamente, não vá o cachorro duvidar das boas intenções fotográficas.

Os olhos azuis claros faiscavam à medida que nos contava a sua vida, faces rosadas do esforço da subida, com o entusiasmo de quem muito provavelmente falava com alguém pela primeira vez naquele dia: sempre havia vivido ali, tinha um pequeno rebanho de cabras, filhos espalhados pelo país, todos os dias eram passados na serra, alternando com o marido a tarefa do pastoreio e da ordenha, que acontecia ao entardecer. Não duvidei da dureza da sua vida, mas o encanto simples com que falava dela era enternecedor...

No seu casaco violeta até ao joelho, chapéu de chuva verde e gorro de lã clara havia em Zulmira uma elegância inata, uma aura que nem a idade nem a vida dura haviam apagado. Despedimo-nos de coração cheio, gratos pelo privilégio destes encontros fortuitos...


12.5.17

David | Artesão Andino


75 minutos. É este o tempo que um pequeno lama de rocha negra leva a criar, do nada até à sua forma final, ícone da cultura andina em formato compacto.

Tudo começa com um assobio. Mais que um assobio, uma brisa melodiosa chega-me aos ouvidos, de origem incerta. Aproximo-me, intrigado. Escuto deliciado, envolvido por todas as emoções que me invadem num dos mais especiais locais de La Paz, a capital não-oficial da Bolívia - o miradouro Killi Killi. Subtilmente, debaixo de um chapéu de aba larga, desbotado pelo sol inclemente dos Andes, um par de lábios em movimentos delicados denuncia-se.



Aproveitando uma curta pausa nesta improvável sinfonia de um homem só, apresento-me. Escuto um - David, placer!, curta resposta embrulhada por um olhar brilhante do meu interlocutor. Pergunto, com interesse genuino, que material é aquele que se move de forma fluída nas suas mãos.
- Basalto, responde.
- E quanto tempo leva a fazer? 
- Una hora e quince minutos, las pequeñas. Arregalo os olhos de espanto e de admiração pelo engenho deste paceño! A beleza simples de tão minusculos objectos, saindo das mãos deste homem de forte presença, que assobia de forma tão bela, faz-me sentir humilde...



11.5.17

Killi Killi

Killi Killi.

Apesar de se encontrar no coração de uma das mais caóticas metrópoles da América do Sul, com má fama provavelmente imerecida, encarrapitado no alto de uma das suas favelas, o local nada de sinistro tem. Tem, sim, uma vista de cortar a respiração. Mostra, sim, uma cidade impossivelmente construída em encostas arenosas. É vigiado, sim, pelo Illimani, o segundo pico mais alto da Bolívia, nevado, à distância, orgulhoso no alto dos seus 6462m.

Meia dúzia de pessoas ciranda por ali: um par de pombinhos adolescentes, visivelmente apaixonados, amassa-se sem cerimónias, num dos bancos de ferro forjado; três japonseses tentam à exaustão encher a máquina fotográfica com fotos em rajada; um polícia de olhar enfadado enche o peito numa tentativa vã de mostrar quem ali manda, sem que ninguém pareça notar na sua presença.


Largos minutos se passam neste deleite, a vista espraiando-se pelo horizonte aberto, enquanto a brisa fresca da montanha provoca pequenos arrepios na pele nua. O sol deixa-se tombar dolentemente por detrás das encostas amareladas do caldeirão natural em que a cidade explodiu, enquanto os glaciares do gigante refulgem os últimos raios solares, num estertor inconsequente, antes da chegada da noite límpida, que se aproxima. Um quoisque de rua ganha tons glamourosos, com as suas lâmpadas de tungsténio e uma multitude de bens que ninguém parece comprar.

É para mim um dos mais especiais locais do epicentro boliviano, pleno de carácter, charme e nostalgia...


8.5.17

A chicha de Freddy Almiron


Não. A chicha de Freddy Almiron nada tem a ver com carne!

Comecemos pelo princípio: chicha é uma bebida fermentada muito popular no Peru, cuja origem remontará pelo menos ao Império Inca, produzida e consumida essencialmente pelas comunidades indígenas. Embora pouco alcoólica dizem que o seu consumo em grandes quantidades tem... consequências!



Na minha última visita ao Peru tive um par de horas livres em Ollantaytambo, a cidade de acesso a Machu Picchu. É uma das localidades com traça mais original do Vale Sagrado, com bastantes vestígios urbanísticos do período Inca e embora seja muito turística na praça central e na zona das ruínas, muda radicalmente assim que nos embrenhamos pelas ruelas simétricas e apertadas, à medida que o bulício dos gringos fica lá longe. De repente passo por um portão entreaberto, que deixa adivinhar um pátio caótico cheio de gente, crianças e graúdos. O instinto fotográfico foi entrar... mas era um espaço privado, faltava uma motivação plausível. Dei ainda meia dúzia de passos até me aperceber que do muro pendia um saco de plástico colorido - sinal de venda de chicha! Aí está! Rapidamente voltei atrás e ganhei coragem para o mergulho! Assim que entrei, um mundo de sorrisos surpresos por ver um estrangeiro naquela zona da cidade. 1 sole por um copo da cerveja tradicional peruana, tirada de um gigantesco bidão azul, para um copo que talvez nos primórdios dos tempos tenha sido lavado...! O que não mata, engorda, convenci-me. Ao fim de uns minutos de conversa com o patriarca, Freddy Almiron, descobri que tínhamos mais em comum do que poderia supor: ele trabalhava em Machu Picchu, como guia, e era muito interessado e informado do que se passava na Europa. A máquina fotográfica, essa, não demorou a ser solicitada pela criançada. E a impressora instantânea Fuji Instax fez a sua magia - daí para a frente tive amigos para a vida. Fred, com 4 anos, filho do meio de Freddy, foi buscar o seu Picachu de estimação e insistiu que o fotografasse! Até a pequena Yazuri, sua irmã, com apenas 6 meses, colaborou! Ao final, foi a própria família que me pediu para fazer um retrato. Adoro quando a fotografia se torna uma ponte cultural, ao invés de uma barreira. Quando a curiosidade é mútua e ambos os lados dão e recebem algo em troca tudo está em harmonia!




O comboio e a responsabilidade de levar um grupo a concretizar um dos sonhos maiores de vida, no dia seguinte, aguardava-me. Foi o tempo certo para um contacto fugaz mas permanente no meu imaginário. Para o mês que vem lá estarei, oxalá surja de novo a oportunidade para dois dedos de conversa e uma chicha com o Freddy!


Pause. Play.


Sim, foram longos meses de ausência. Mas não de abandono. Outros focos, outras prioridades foram fazendo com que este blog tivesse entrado num hiato, numa hibernação da qual eu queria sair mas que fui adiando. Expectativas demasiado elevadas impostas por mim próprio acabaram por me levar a não o sustentar e alimentar da forma que tinha imaginado e idealizado. Por isso parei. E por isso agora retomo, num formato que prevejo diferente: micro-histórias, textos curtos, com a periodicidade que a inspiração e a vontade me trouxerem, sem sentimentos de culpa, por vezes apenas sobre uma única imagem, uma personagem singular com que me cruze, mais focadas nas pessoas com que tenho o privilégio de conviver, ainda que algumas vezes apenas por escassos minutos, instantes vivenciados nas viagens que preenchem os meus dias, sejam elas viagens mais distantes ou menos distantes, mais exóticas ou mais mundanas... 

Quiçá esta também seja uma evolução da minha fotografia. Menos urgente no dia a dia, mais pausada, mais humilde... mas não menos presente. Os processos criativos nunca são lineares. São mais uma longa escadaria. Ou talvez melhor diga uma tortuosa montanha russa em que os altos e os baixos se sucedem e por vezes nos colocam os (poucos) cabelos em pé, estarrecidos tanto pela adrenalina como pela inércia...

É um gosto estar de volta.



29.1.17

Exposição Crónicas da Atlântida | Coimbra

A exposição Crónicas da Atlântida rumou à minha terra natal e estará patente ao público no Museu Municipal de Coimbra de 29 de Janeiro a 19 de Março 2017.

Mais uma paragem destas 37 fotos, com que represento ao meu olhar cada uma das 9 ilhas açorianas, legendadas por pequenas histórias das personagens que retratam.

Entrada livre.
De 3ª a 6ª feira das 10:00 às 18:00 | Sábado e Domingo das 10:00 às 13:00 e 14:00 às 18.00. Encerra à 2ª feira e feriados. 


Mais em www.cronicasdaatlantida.org

30.4.16

Exposição Crónicas da Atlântida | Lisboa


Após a palestra no Porto, as Crónicas da Atlântida rumaram à capital, com a exposição do projecto Crónicas da Atlântida, que estará patente de 6 de Maio a 5 de Junho na Lx Factory, no 2º piso do edifício do CoWork.

São 37 fotos das 9 ilhas açorianas, acompanhadas das pequenas histórias associadas a cada uma das imagens.

Entrada livre | Diariamente das 07h00 às 02h00 |

Mais em www.cronicasdaatlantida.org

31.3.16

Palestra Crónicas da Atlântida | Porto



Após dois anos de viagem pelas nove ilhas açorianas em busca do quotidiano das gentes do arquipélago, acompanhado pela máquina fotográfica, inicia-se amanhã, dia 1 de Abril (não é mentira!) um novo ciclo do projecto Crónicas da Atlântida. No Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto, na Praça dos Leões, bem no coração do centro histórico da Invicta, pelas 21h00, estarei à conversa em discurso directo sobre o que significou para mim este projecto - o que vi, o que vivi, o que senti. E o que fotografei. A primeira NomadTalk de 2016

Iremos percorrer visualmente muitas imagens até agora inéditas, viajando pelos verdes picos que alguns dizem ser da Atlântida afundada. Partilharei com o público os tesouros que encontrei e as estórias de vida de inúmeras personagens extraordinárias, com vivências ímpares, que me deixaram sem dúvida mais rico, mais humilde, mais completo.

Enche-me um profundo sentimento de gratidão às gentes dos Açores. Se era já um convertido, apaixonei-me ainda mais por este território mágico. Obrigado a todos!

E todos estão convidados para a palestra!

1 de Abril | 21h00 | Praça Gomes Teixeira (Leões) | Entrada livre

O projecto Crónicas da Atlântida foi possível graças ao apoio da Bolsa de Exploração Nomad e da National Geographic Portugal

14.2.16

Crónicas da Atlântida - fim e principio

Sim. Fim e princípio.

Não. Não me enganei na ordem. As Crónicas da Atlântida chegaram a um fim. E simultaneamente a um novo princípio.

Ao fim de dois anos de trabalho de campo e mais de uma dezena de viagens ao arquipélago, completei a captação de conteúdos para o projecto. É um momento de reflexão, de parar para olhar para a jornada até aqui vivida e, após essa pausa, de forças retemperadas, olhar para a segunda fase, tão ou mais importante: a comunicação deste projecto e a produção dos seus outputs.


Nos últimos nove meses - de Maio de 2015 a Janeiro de 2016 - a página do projecto foi sendo completada diariamente, ilha por ilha, da maior para a mais pequena, de Oriente para Ocidente. São 276 fotos no total, que têm como objectivo espelhar a minha perspectiva pessoal do quotidiano de cada uma das ilhas, mostrando aquilo que um viajante curioso pode encontrar nos Açores. Para além das paisagens deslumbrantes, cenário de um argumento filmado em câmara lenta, a ritmo próprio, as suas gentes são os actores principais, foco da minha atenção, admiração e respeito. E foi nelas, em quase sofrimento por secundarizar voluntariamente o entorno, mas mantendo-o debaixo de olho, como pano de fundo significante, que a minha objectiva se focou. Só eu conheço a riqueza interior que deste arquipélago trouxe! Procurei que tais experiências humanas, pessoais e emocionais transparecessem para o registo documental que lá me levou. Que as fotografias, com toda a sua frieza bidimensional, ganhassem vida por artes mágicas e transmitissem ao espectador pelo menos uma parte do que vivi! Sinto-me um privilegiado – pelo que senti, pelo que vi, pelas portas que me foram abertas, pelas horas de conversas, por vezes silenciosas, que me foram ofertadas. Foram viagens em carrinha de caixa aberta, face ao vento, a ouvir estórias de baleeiros! Foram saídas para o Atlântico em frágeis cascas de nós a quem os pescadores chamam casa! Foram jornadas a vindimar de costas contorcidas, a arrebanhar manadas de vacas por encostas íngremes, a feirar sob copiosa chuvada, tardadas a correr à frente de touros, caminhadas em busca de burros autóctones, lancharadas de porco no espeto para comemorar sucessos de outrem e rezar por futuros alheios... E tanto, tanto, tanto mais! Cada ilha com as suas particularidades, cada calhau, como alguns lhes chamam, com uma alma comum, uma açorianidade que alguns não vêm, outros muito discutem, mas que se sente, se entranha a cada chegada, a cada partida!





Sinto os Açores como minha casa. Minha segunda casa. Em cada ilha poderei regressar e ser acolhido por sorrisos conhecidos. Já antes tinha visitado as nove ilhas. Regressei a todas. Regressarei. Como quem regressa a um lar há muito abandonado. Há muitas vidas atrás...




As Crónicas foram um dos mais longos e intensos projectos fotográficos pessoais que empreendi ao longo da minha carreira enquanto fotojornalista. Em que o foco, tempo, recursos e esforço empreendidos foram maiores. Com empenho renovado, inicia-se agora uma nova etapa. Ao longo de 2016 suceder-se-ão diversos eventos: exposições fotográficas, a produção de um slideshow multimedia, palestras nas principais cidades do país, culminando na publicação de um livro fotográfico, cujos textos serão também eles assinados por mim. É um novo princípio, em que a presença virtual se reduz para dar espaço às iniciativas de carne e osso. Para elas espero poder contar com a vossa presença, para que me seja dada a oportunidade de partilhar esta minha paixão. E para que dúvidas não restem, hoje, neste dia que alguém disse ser dos namorados, renovo a declaração de amor a este território tão peculiar, que há 25 anos trago no coração...

Adoro-vos, Açores!



E um profundo agradecimento a quem esteve desde a primeira hora com este projecto, tornando-o possível: 

29.1.16

Bolsa de Exploração Nomad



Acaba de ser lançado um projecto impar em Portugal: a Bolsa de Exploração Nomad. Criada com o intuito de apoiar projectos de viagem e descoberta que, de outra forma, dificilmente veriam a luz do dia, nasce direccionado para uma comunidade que vai lentamente crescendo em Portugal mas que muitas vezes se depara com as dificuldade mundanas de falta de fundos. É a concretização de um sonho antigo das mentes por detrás da Nomad.pt, agência de viagens-aventura com que colaboro desde 2011 e com que uma boa parte dos leitores deste blog estará familiarizada.

São 5 as categorias a que os candidatos, com mais de 18 anos e com nacionalidade portuguesa, podem submeter as suas propostas:

-       Conservação de Natureza
-       Turismo Responsável
-       Exploração Global
-       Narrativa de Viagem
-       Auxílio Humano

O processo de candidatura passa por uma apresentação do conceito em vídeo e o valor a distribuir ascende a €10 000 anuais, a atribuir a um ou mais projectos, consoante a pertinência e necessidades, avaliadas por uma equipa ligada à Nomad e à sua comunidade.

Embora noutros moldes, os projectos da travessia da Amazónia, que fiz com os colegas Tiago Costa, Eduardo Madeira e Inácio Rozeira, e as Crónicas da Atlântida, cuja vertente online terminou há dias e se prepara para começar uma nova fase, mais física e menos virtual, beneficiaram já deste fundo. Agora que o mundo da imprensa de viagens se eclipsou, em que quase se pede aos profissionais para pagar para publicar conteúdos de viagem, em que viajar se tornou mais fácil mas, por outro lado, os recursos escasseiam, esta é uma oportunidade a não perder por todos aqueles que sentem a urgência da viagem e que perseguem o ideal de criar um impacto positivo na sociedade.


Boa sorte aos candidatos!

1.1.16

Crónicas da Atlântida | Mês 9 | Corvo


Novo ano, nova ilha! 

As Crónicas da Atlântida estão a chegar à sua última, mais diminuta, mas talvez mais enigmática ilha: o Corvo! Com uma população de 430 pessoas, uma única localidade, uma única estrada, uma escola e o único local do país em que não existe Junta de Freguesia, mostra uma tendência demográfica rara na Europa: crescimento! Contra as expectativas, o quotidiano aqui é surpreendentemente preenchido: actividades desportivas, eventos musicais, pesca, praia e até concertos de música ao vivo têm lugar com uma frequência insuspeita. E nada, mas nada mesmo, pode descrever a sensação de silêncio e paz que o ocaso traz, com a segurança de que amanhã será outro dia, algures no meio do Atlântico, algures a meio caminho entre a Europa e as Américas...

São as últimas 31 fotografias de um total de 276, publicadas diariamente ao longo dos últimos 9 meses em www.cronicasdaatlantida.org

Powered by Bolsa de Exploração Nomad + National Geographic Portugal

1.12.15

Crónicas da Atlântida | Mês 8 | Graciosa

Caminhando a passos largos para o final, as Crónicas da Atlântida chegam em Dezembro àquela que talvez seja a menos conhecida das ilhas dos Açores: a Graciosa. Na sombra da Terceira, fora do Triângulo, fica, no inverno, dependente das ligações aéreas para a comunicação com o mundo exterior. Outrora o celeiro do arquipélago, é uma ilha altamente produtiva, em que a orografia suave e a baixa altitude facilitam o estabelecimento de uma presença humana proporcionalmente elevada: com pouco mais do triplo da área do Corvo, tem uma população dez vezes maior!

Galeria actualizada diariamente em www.cronicasdaatlantida.org

Powered by Bolsa de Exploração Nomad + National Geographic Portugal


20.11.15

Gente colorida


Cor!

Adoro cor na minha vida. Adoro gente colorida. Adoro espíritos folclóricos. Adoro fotografar a cores! No inverno então, a cor é um refrescante bálsamo para as sombras cinzentas que, subrepticiamente, nos cavalgam de tempos a tempos. Embora algo distante, há um tipo de local onde ela faz verdadeiramente parte do quotidiano, é visível em cada esquina, em cada paisagem, em cada corpo: a estação de ski! De todas as que conheço, e porque lá tenho regressado regularmente nos últimos anos, Chamonix tem um lugar especial no meu coração. De cada vez que chego, é como se entrasse de chofre numa daquelas lojas de tintas que anunciam fenomenais misturas cromáticas, numa explosão de 10 000 cores diferentes! 

A mescla entre a Natureza agreste dos Alpes, que espartilha com as suas encostas brancas e empinadas a malha urbana da cidade, epicentro de uma vivência única do espírito de montanha, é o cenário improvável para este desfile de cor e forma. Skis, calças, casacos, blusões de penas, gorros, luvas, botas, pranchas, tudo serve para uma afirmação de estilo que choca com o cinzentão paradigma a que, na maioria das vezes, sou exposto em Portugal. Decidi portanto compilar alguns desses splashes de cor, resultantes de três viagens à capital do alpinismo mundial.



E claro que a forma não poderia deixar de ser um íman para alguém que, como eu, vive da imagem. Há uma atracção telúrica para o belo, para o que me excita o olhar, sobretudo quando um lado selvagem está presente. Mas vai mais fundo: na montanha há um código implícito de conduta que foge, amiúde radicalmente, às normas. A assunção do risco – seja em vertiginosas descidas freeride na neve virgem, seja em ascensões que desafiam os sentidos a picos inóspitos ou em escaladas cruas de rocha vertical – rompe sempre com algo de instituído. E isso seduz-me. Fotográfica, mas sobretudo emocionalmente...


4.11.15

Crónicas da Atlântida | Mês 7 | Flores



Em Novembro chegaremos ao território mais a Oeste da Europa: o grupo Ocidental do arquipélago dos Açores. As Flores, conhecidas pelas suas inúmeras cascatas de água e incomparável vegetação luxuriante receber-nos-ão, num misto de insularidade extrema, bruma atlântica e brilho humano.


São as Crónicas da Atlântida percorrendo uma geografia onde as lendas e as estórias de viajantes antigos se contam ao vento, que hoje se debate com uma desertificação galopante, onde novas comunidades de estrangeiros se formam e onde, mais do que em qualquer outro lugar, o isolamento se entranha, nas gentes, no sentir quotidiano. Ali, em ligação umbilical com o Corvo, ilha irmã, há que se valer por si próprio. O barco pode não chegar. E o avião aterrará... não se sabe bem quando.

Mais em www.cronicasdaatlantida.org