sábado, 30 de abril de 2016

Exposição Crónicas da Atlântida | Lisboa


Após a palestra no Porto, as Crónicas da Atlântida rumaram à capital, com a exposição do projecto Crónicas da Atlântida, que estará patente de 6 de Maio a 5 de Junho na Lx Factory, no 2º piso do edifício do CoWork.

São 37 fotos das 9 ilhas açorianas, acompanhadas das pequenas histórias associadas a cada uma das imagens.

Entrada livre | Diariamente das 07h00 às 02h00 |

Mais em www.cronicasdaatlantida.org

quinta-feira, 31 de março de 2016

Palestra Crónicas da Atlântida | Porto



Após dois anos de viagem pelas nove ilhas açorianas em busca do quotidiano das gentes do arquipélago, acompanhado pela máquina fotográfica, inicia-se amanhã, dia 1 de Abril (não é mentira!) um novo ciclo do projecto Crónicas da Atlântida. No Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto, na Praça dos Leões, bem no coração do centro histórico da Invicta, pelas 21h00, estarei à conversa em discurso directo sobre o que significou para mim este projecto - o que vi, o que vivi, o que senti. E o que fotografei. A primeira NomadTalk de 2016

Iremos percorrer visualmente muitas imagens até agora inéditas, viajando pelos verdes picos que alguns dizem ser da Atlântida afundada. Partilharei com o público os tesouros que encontrei e as estórias de vida de inúmeras personagens extraordinárias, com vivências ímpares, que me deixaram sem dúvida mais rico, mais humilde, mais completo.

Enche-me um profundo sentimento de gratidão às gentes dos Açores. Se era já um convertido, apaixonei-me ainda mais por este território mágico. Obrigado a todos!

E todos estão convidados para a palestra!

1 de Abril | 21h00 | Praça Gomes Teixeira (Leões) | Entrada livre

O projecto Crónicas da Atlântida foi possível graças ao apoio da Bolsa de Exploração Nomad e da National Geographic Portugal

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Crónicas da Atlântida - fim e principio

Sim. Fim e princípio.

Não. Não me enganei na ordem. As Crónicas da Atlântida chegaram a um fim. E simultaneamente a um novo princípio.

Ao fim de dois anos de trabalho de campo e mais de uma dezena de viagens ao arquipélago, completei a captação de conteúdos para o projecto. É um momento de reflexão, de parar para olhar para a jornada até aqui vivida e, após essa pausa, de forças retemperadas, olhar para a segunda fase, tão ou mais importante: a comunicação deste projecto e a produção dos seus outputs.


Nos últimos nove meses - de Maio de 2015 a Janeiro de 2016 - a página do projecto foi sendo completada diariamente, ilha por ilha, da maior para a mais pequena, de Oriente para Ocidente. São 276 fotos no total, que têm como objectivo espelhar a minha perspectiva pessoal do quotidiano de cada uma das ilhas, mostrando aquilo que um viajante curioso pode encontrar nos Açores. Para além das paisagens deslumbrantes, cenário de um argumento filmado em câmara lenta, a ritmo próprio, as suas gentes são os actores principais, foco da minha atenção, admiração e respeito. E foi nelas, em quase sofrimento por secundarizar voluntariamente o entorno, mas mantendo-o debaixo de olho, como pano de fundo significante, que a minha objectiva se focou. Só eu conheço a riqueza interior que deste arquipélago trouxe! Procurei que tais experiências humanas, pessoais e emocionais transparecessem para o registo documental que lá me levou. Que as fotografias, com toda a sua frieza bidimensional, ganhassem vida por artes mágicas e transmitissem ao espectador pelo menos uma parte do que vivi! Sinto-me um privilegiado – pelo que senti, pelo que vi, pelas portas que me foram abertas, pelas horas de conversas, por vezes silenciosas, que me foram ofertadas. Foram viagens em carrinha de caixa aberta, face ao vento, a ouvir estórias de baleeiros! Foram saídas para o Atlântico em frágeis cascas de nós a quem os pescadores chamam casa! Foram jornadas a vindimar de costas contorcidas, a arrebanhar manadas de vacas por encostas íngremes, a feirar sob copiosa chuvada, tardadas a correr à frente de touros, caminhadas em busca de burros autóctones, lancharadas de porco no espeto para comemorar sucessos de outrem e rezar por futuros alheios... E tanto, tanto, tanto mais! Cada ilha com as suas particularidades, cada calhau, como alguns lhes chamam, com uma alma comum, uma açorianidade que alguns não vêm, outros muito discutem, mas que se sente, se entranha a cada chegada, a cada partida!





Sinto os Açores como minha casa. Minha segunda casa. Em cada ilha poderei regressar e ser acolhido por sorrisos conhecidos. Já antes tinha visitado as nove ilhas. Regressei a todas. Regressarei. Como quem regressa a um lar há muito abandonado. Há muitas vidas atrás...




As Crónicas foram um dos mais longos e intensos projectos fotográficos pessoais que empreendi ao longo da minha carreira enquanto fotojornalista. Em que o foco, tempo, recursos e esforço empreendidos foram maiores. Com empenho renovado, inicia-se agora uma nova etapa. Ao longo de 2016 suceder-se-ão diversos eventos: exposições fotográficas, a produção de um slideshow multimedia, palestras nas principais cidades do país, culminando na publicação de um livro fotográfico, cujos textos serão também eles assinados por mim. É um novo princípio, em que a presença virtual se reduz para dar espaço às iniciativas de carne e osso. Para elas espero poder contar com a vossa presença, para que me seja dada a oportunidade de partilhar esta minha paixão. E para que dúvidas não restem, hoje, neste dia que alguém disse ser dos namorados, renovo a declaração de amor a este território tão peculiar, que há 25 anos trago no coração...

Adoro-vos, Açores!



E um profundo agradecimento a quem esteve desde a primeira hora com este projecto, tornando-o possível: 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Bolsa de Exploração Nomad



Acaba de ser lançado um projecto impar em Portugal: a Bolsa de Exploração Nomad. Criada com o intuito de apoiar projectos de viagem e descoberta que, de outra forma, dificilmente veriam a luz do dia, nasce direccionado para uma comunidade que vai lentamente crescendo em Portugal mas que muitas vezes se depara com as dificuldade mundanas de falta de fundos. É a concretização de um sonho antigo das mentes por detrás da Nomad.pt, agência de viagens-aventura com que colaboro desde 2011 e com que uma boa parte dos leitores deste blog estará familiarizada.

São 5 as categorias a que os candidatos, com mais de 18 anos e com nacionalidade portuguesa, podem submeter as suas propostas:

-       Conservação de Natureza
-       Turismo Responsável
-       Exploração Global
-       Narrativa de Viagem
-       Auxílio Humano

O processo de candidatura passa por uma apresentação do conceito em vídeo e o valor a distribuir ascende a €10 000 anuais, a atribuir a um ou mais projectos, consoante a pertinência e necessidades, avaliadas por uma equipa ligada à Nomad e à sua comunidade.

Embora noutros moldes, os projectos da travessia da Amazónia, que fiz com os colegas Tiago Costa, Eduardo Madeira e Inácio Rozeira, e as Crónicas da Atlântida, cuja vertente online terminou há dias e se prepara para começar uma nova fase, mais física e menos virtual, beneficiaram já deste fundo. Agora que o mundo da imprensa de viagens se eclipsou, em que quase se pede aos profissionais para pagar para publicar conteúdos de viagem, em que viajar se tornou mais fácil mas, por outro lado, os recursos escasseiam, esta é uma oportunidade a não perder por todos aqueles que sentem a urgência da viagem e que perseguem o ideal de criar um impacto positivo na sociedade.


Boa sorte aos candidatos!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Crónicas da Atlântida | Mês 9 | Corvo


Novo ano, nova ilha! 

As Crónicas da Atlântida estão a chegar à sua última, mais diminuta, mas talvez mais enigmática ilha: o Corvo! Com uma população de 430 pessoas, uma única localidade, uma única estrada, uma escola e o único local do país em que não existe Junta de Freguesia, mostra uma tendência demográfica rara na Europa: crescimento! Contra as expectativas, o quotidiano aqui é surpreendentemente preenchido: actividades desportivas, eventos musicais, pesca, praia e até concertos de música ao vivo têm lugar com uma frequência insuspeita. E nada, mas nada mesmo, pode descrever a sensação de silêncio e paz que o ocaso traz, com a segurança de que amanhã será outro dia, algures no meio do Atlântico, algures a meio caminho entre a Europa e as Américas...

São as últimas 31 fotografias de um total de 276, publicadas diariamente ao longo dos últimos 9 meses em www.cronicasdaatlantida.org

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Crónicas da Atlântida | Mês 8 | Graciosa

Caminhando a passos largos para o final, as Crónicas da Atlântida chegam em Dezembro àquela que talvez seja a menos conhecida das ilhas dos Açores: a Graciosa. Na sombra da Terceira, fora do Triângulo, fica, no inverno, dependente das ligações aéreas para a comunicação com o mundo exterior. Outrora o celeiro do arquipélago, é uma ilha altamente produtiva, em que a orografia suave e a baixa altitude facilitam o estabelecimento de uma presença humana proporcionalmente elevada: com pouco mais do triplo da área do Corvo, tem uma população dez vezes maior!

Galeria actualizada diariamente em www.cronicasdaatlantida.org

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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Gente colorida


Cor!

Adoro cor na minha vida. Adoro gente colorida. Adoro espíritos folclóricos. Adoro fotografar a cores! No inverno então, a cor é um refrescante bálsamo para as sombras cinzentas que, subrepticiamente, nos cavalgam de tempos a tempos. Embora algo distante, há um tipo de local onde ela faz verdadeiramente parte do quotidiano, é visível em cada esquina, em cada paisagem, em cada corpo: a estação de ski! De todas as que conheço, e porque lá tenho regressado regularmente nos últimos anos, Chamonix tem um lugar especial no meu coração. De cada vez que chego, é como se entrasse de chofre numa daquelas lojas de tintas que anunciam fenomenais misturas cromáticas, numa explosão de 10 000 cores diferentes! 

A mescla entre a Natureza agreste dos Alpes, que espartilha com as suas encostas brancas e empinadas a malha urbana da cidade, epicentro de uma vivência única do espírito de montanha, é o cenário improvável para este desfile de cor e forma. Skis, calças, casacos, blusões de penas, gorros, luvas, botas, pranchas, tudo serve para uma afirmação de estilo que choca com o cinzentão paradigma a que, na maioria das vezes, sou exposto em Portugal. Decidi portanto compilar alguns desses splashes de cor, resultantes de três viagens à capital do alpinismo mundial.



E claro que a forma não poderia deixar de ser um íman para alguém que, como eu, vive da imagem. Há uma atracção telúrica para o belo, para o que me excita o olhar, sobretudo quando um lado selvagem está presente. Mas vai mais fundo: na montanha há um código implícito de conduta que foge, amiúde radicalmente, às normas. A assunção do risco – seja em vertiginosas descidas freeride na neve virgem, seja em ascensões que desafiam os sentidos a picos inóspitos ou em escaladas cruas de rocha vertical – rompe sempre com algo de instituído. E isso seduz-me. Fotográfica, mas sobretudo emocionalmente...


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Crónicas da Atlântida | Mês 7 | Flores



Em Novembro chegaremos ao território mais a Oeste da Europa: o grupo Ocidental do arquipélago dos Açores. As Flores, conhecidas pelas suas inúmeras cascatas de água e incomparável vegetação luxuriante receber-nos-ão, num misto de insularidade extrema, bruma atlântica e brilho humano.


São as Crónicas da Atlântida percorrendo uma geografia onde as lendas e as estórias de viajantes antigos se contam ao vento, que hoje se debate com uma desertificação galopante, onde novas comunidades de estrangeiros se formam e onde, mais do que em qualquer outro lugar, o isolamento se entranha, nas gentes, no sentir quotidiano. Ali, em ligação umbilical com o Corvo, ilha irmã, há que se valer por si próprio. O barco pode não chegar. E o avião aterrará... não se sabe bem quando.

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por entre as sombras



Como qualquer português, o meu legado cultural passa inevitavelmente pela herança judaico-cristã, na qual fui educado e que, mesmo para os católicos não-praticantes, representa uma forte baliza de valores, referências e princípios. Religiões à parte - que, em demasiadas situações ao longo da história mundial, estiveram ao serviço da ganância cega e da sede de poder - há algo de profundamente místico em muitos templos, sejam eles de que credo forem, em que zona do globo seja. Há alguns meses atrás, referia exactamente isso num texto, a propósito da minha mais recente visita a Istambul.

Desta vez foi em Viena. Nas deambulações mais ou menos errantes pela cidade das valsas, não foi na Ópera que me foquei. Foi, entrando ao crepúsculo e saindo já noite fechada, na catedral de St. Stephens (ou Stephansdom, em alemão), uma das mais imponentes silhuetas do skyline da capital austríaca. Sede da Igreja Católica no país, a sua origem remonta ao séc. XII, construída em estilos romanesco e gótico, com um impressionante telhado multicolor e de agulhas apontadas ao céu, atingindo os 136m de altura no ponto mais alto! Foi aqui que muitos dos grandes eventos da história europeia ocorreram, sendo igualmente o epicentro da poderosa dinastia Habsburg.




No entanto, para além de toda a imponência exterior e dos pergaminhos históricos que representa, foi no seu interior que me senti mais impressionado. A escuridão imperava e, estranhamente em locais turísticos, e apesar das largas dezenas de pessoas que circulavam lentamente pelos corredores, havia silêncio. As velas, bruxuleantes, emprestavam uma ambiência etérea ao espaço. Alguns rostos, em oração, fechados, solenes, eram intermitentemente iluminados pelos laivos dourados o pavio em chama. Num canto, um miúdo de telemóvel em punho fazia experiências fotográficas com o cenário, quase cinematográfico.

O jogo de luz e sombra só pode ser descrito como magistral - imagino o quão aterrador seria para os crentes da Idade Média aqui entrar, esmagados pela escala, pelo olhar petrificante de um Cristo torturado e ensanguentado, pela palavra irada de bispos e cardeais, pelo terror das provações do inferno e a miragem prometida do paraíso... Se hoje é tão fácil manipular consciências de multidões, nesse tempo ainda mais! Percorro, com atenção, e com a magicamente silenciosa X100s discretamente em punho, a longa nave, olhando o chão geometricamente disposto, em tons de branco e negro, intercalado pelas enormes colunas de pedra, torneadas, brilhantes, enquanto escuto os meus próprios passos. Há algo de espiritual, ali. Que ultrapassa, de longe, os mundanos e imperfeitos assuntos da política religiosa...

Saio. Para a noite escura, para as luzes de néon, para as montras das lojas de luxo. Meia dúzia de passos e o mundo mudou.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A Sissi já não mora aqui


Quem já viajou comigo em grupo sabe que, ao visitar uma cidade com tempo limitado, privilegio a vivência quotidiana a um siteseeing frenético. Sinto que deambular pelas ruas de uma cidade é muito mais enriquecedor que enfiar-me em museus (por muito interessantes que sejam) ou aguardar em filas intermináveis para visitar as principais atracções turísticas locais. Adoro sentar-me num banco de uma praça ou em qualquer esplanada com vista para a cidade, observando, parado, o bulício que por mim passa.




Haverá um certo voyeurismo nesta postura, admito. Mas ainda hoje me recordo de duas tardes que passei na Porta de Almedina, em Coimbra, em reportagem para um artigo sobre Afonso Henriques, para a National Geographic. Como marcar uma reunião com a personagem se revelou assaz difícil, resolvi investir numa metáfora, passando largas horas a observar e fotografar o quotidiano de um dos últimos vestígios da sua época na estrutura urbana da antiga capital portuguesa. E, ao fim de algum tempo, apercebemo-nos de um ritmo próprio, de gente que vai e vem - os turistas, os estudantes, os idosos, os mafiosos, os imigrantes, os profissionais, os moradores - toda uma fauna humana de cuja vivência eu nunca me aperceberia se não tivesse tomado o tempo certo para observar. E isso reflecte-se na fotografia. Oportunidades há das quais apenas tomamos consciência quando dedicamos tempo e foco a um tema, um local, uma ideia...
De uma outra vez, na primeira de muitas viagens que fiz a Marraquexe, abanquei durante horas, literalmente, num dos múltiplos restaurantes desmontáveis da Djemma El Fna, a mítica praça central da cidade marroquina. Escolhi um de esquina, virado para o enorme vazio que se estende quase até à Koutobia, cuja silhueta se ergue ao fundo, contra o sol incandescente do ocaso, com laivos de fogo emprestados pelo deserto, ali tão perto... E deliciei-me com o infindável, exótico e inebriante espectáculo de cor, forma, movimento, som e cheiro que diante dos meus olhos incrédulos se desenrolava!


Regressando ao presente, Viena foi a minha mais recente experiência de viver a rua. Cidade icónica da cultura centro-europeia, revelou-se para mim uma descoberta tranquila, sem sobressaltos. Guiado por um estrangeiro, tive o privilégio de percorrer as suas velhas avenidas e centenários parques acompanhado por quem os havia conhecido apenas recentemente, com um olhar ainda fresco e deslumbrado. Gostei da forma como o povo usufrui dos espaços públicos, como a ordem germânica é aqui posta ao serviço do bem comum: esplanadas, ruas pedonais, ciclovias, jardins, bancos... Não é a meteorologia a ajudar, isso é certo. É, sim, a atitude. Quanto aos museus, que sei deslumbrantes, a ópera, que dizem inolvidável, e o palácio da Sissi, que apenas vi por fora... terão de ficar para uma próxima!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Mirando duas rodas... ao som de Strauss


Percorrer a capital austríaca a pé é um regalo para os sentidos. Não tive muito tempo lá, mas um bom amigo brasileiro, que havia conhecido anos atrás num encontro fotográfico no Brasil, tratou de o rentabilizar ao máximo! Obrigado, Luiz! Mas voltarei a esse tema num próximo post. Porque, para um aficcionado da bicicleta como eu, foi quase com inveja que cirandei entre tanto velocípede, entre tantos cidadãos que escolhem um meio de transporte social e ambientalmente responsável, fazendo-no com uma naturalidade que apenas parece natural entre os povos do Norte.

Claro que urbes planas ajudam e que, por outro lado, inclinações não são um obstáculo insuperável. Basta atentar à recente vaga ciclista a que em Lisboa e mesmo Porto se assiste, cidades geograficamente desafiantes. A liberdade de movimentação que proporciona é algo que só experimentado se compreende. O trânsito basicamente desaparece, os atalhos surgem a cada esquina ou viela, a brisa sente-se em permanência, o coração bomba, pujante, agradecendo a gentileza aos pulmões, ao mesmo tempo que os músculos se retesam e descontraem, alternadamente, sincopadamente...



Naturalmente não há bela sem senão. Para além do esforço físico, mais crítico em climas quentes - como o nosso - e em territórios irregulares - como os nossos - que pode levar o ciclista a chegar completamente suado ao local de trabalho ou ao encontro romântico, existe a infeliz cultura do automóvel como rei e senhor nas nossas estradas. Raramente existe planeamento urbanístico que contemple o uso do velocípede, as ciclovias estão cheias de gente a passear a pé ou com carrinhos de bebé e poucos automobilistas hesitam em buzinar alarvemente se alguma bicicleta ousa incomodá-lo na faixa de rodagem (que é o lugar dela, não no passeio nem a 5cm do lancil)!


Mas, regressando a Viena, as primeiras horas da minha curta estadia deixaram-me efectivamente a desejar poder fazer assim em casa. É um meio de transporte verdadeiramente democrático. Acessível a todos. Sem excepção! E isso dá-lhe um encanto a que não consigo resistir. Dei por mim, até, a dar uma segunda olhada para as vintage single speed! Como são belas, elas! Maiores ou mais pequenas, sóbrias ou exuberantes, minimalistas ou tecnológicas, claras ou escuras, cuidadas ou negligé, nuas ou artilhadas, há-as para todos os gostos!...

Regressado a casa, resolvi fazer com algumas destas imagens experiências no pós-tratamento com presets do Adobe Lightroom, em que ao contraste é dado um enfoque particularmente forte. Em breve dedicarei um post específico a este tema, usando a técnica em retrato, no qual o resultado é ainda mais dramático. Por agora me vou. A pé. À falta de bicicleta... à mão.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Crónicas da Atlântida | Mês 6 | Santa Maria



Passada a marca do meio do projecto, aCrónicas da Atlântida entram nas chamadas "ilhas pequenas", aterrando directamente em Santa Maria durante o mês de Outubro

A "Ilha Amarela" - a mais antiga, a primeira a ser povoada e a que mais diferente é das restantes, pela geologia parcialmente calcária e clima seco - é também surpreendentemente cosmopolita para a sua área e população. A proximidade a São Miguel, na actualidade, a presença de ingleses, franceses e americanos, ao longo da história recente e a marca difusa deixada por piratas e corsários no antigamente, fazem com que a vida cultural e as mentes arejadas de Santa Maria se revelem ao viajante...

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Crónicas da Atlântida | Mês 5 | Faial


No mês que anuncia o fim do Verão, Setembro, e que simultaneamente marca o meio do projecto, as Crónicas da Atlântida seguem viagem para o Faial. 

Serão 30 instantâneos do quotidiano da Ilha Azul, porta de entrada do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge), onde os Açores são mais arquipélago, onde a insularidade se sente de forma quase omnipresente, tantas e tão presentes são as ilhas no horizonte. A Horta acolhe-nos, famosa como ponto de encontro de iatistas e velejadores no Atlântico Norte, com o incontornável Café Peter's como sala de visitas. A perfeita Caldeira lá está, sobranceira, circular, profunda. E a alienígena paisagem lunar do vulcão dos Capelinhos aguarda os passos do viajante, na outra ponta de ilha, para o ocaso diário num idílico miradouro

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sábado, 1 de agosto de 2015

Crónicas da Atlântida | Mês 4 | São Jorge


Inicia-se a 1 de Agosto o quarto mês do projecto Crónicas da Atlântida, dedicado precisamente à quarta maior ilha do arquipélago dos Açores - São Jorge.

Durante 31 dias teremos 31 fotos da vida quotidiana captadas por toda a Ilha-Dragão, apodo devido à sua particular forma alongada, com uma cadeia de cones vulcânicos relembrando as costas e escamas de um sáurio. São Jorge tem nas suas fajãs - pequenas áreas de terreno plano e fértil na base das escarpas, junto ao mar - o expoente máximo de peculiaridade, numa paisagem onde o verde nunca falha e que se assume como o epicentro geográfico dos Açores - do Pico da Esperança, em dias de céu límpido, enxergam-se as cinco ilhas do Grupo Central, duas de cada lado e mais uma sob os pés.

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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Há coisas que se emprestam


Diz uma máxima vernácula que "Há duas coisas que não se emprestam..." Abstenho-me de as enunciar, deixando uma certa cultura geral dar a resposta, e afirmo o contrário: "Há coisa que se emprestam"! E a máquina fotográfica é uma delas.

Ao longo das muitas de viagens com grupos que tenho feito ao longo dos anos, várias ocasiões houve em que, por algum motivo, pedi uma máquina emprestada ao vizinho - ou porque não tinha uma objectiva adequada à situação, ou porque a máquina de que dispunha não servia, ou porque a bateria tinha acabado, o cartão estava cheio, a máquina na mochila e a situação era urgente ou, simplesmente, porque não dava. Pela prática que vou acumulando em utilizar muitos modelos e tipos diferentes de aparelhos fotográficos, tornou-se segunda natureza ajustar para os modos M(anual) ou A(aperture) a grande maioria dos modelos. E é um quase desafio pessoal conseguir em segundos boas imagens com um meio com que não estou familiarizado. Claro que, muitas vezes - a maioria até, diria - nunca chego a ficar com as fotografias que realizei. Mas recentemente, durante a viagem ao Peru, no meio de várias explicações a uma das viajantes Nomad (e que, talvez por ser minha amiga já antes da viagem, teve a especial fineza de me fazer chegar as fotos), houve uma série de instantâneos particularmente felizes, talvez também por a máquina (uma compacta avançada Fuji XS1) ser muito interessante, pelo que as resolvi partilhar aqui.



A maioria foram captadas enquanto lhe explicava alguns pormenores técnicos, ou dava sugestões de composição. E é interessante como surgem oportunidades a cada instante, quando estamos alerta e atentos. E como, neste papel de formador, eu próprio me surpreendo com o processo - seja ao usar o LCD da máquina para compor, coisa que não faço habitualmente, seja a utilizar zooms extremos para pormenores de paisagem, fazer macros insuspeitos ou, simplesmente, a gozar com algum experimentalismo. É sempre bom - e refrescante - brincar com a fotografia!


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Nas entranhas da Terra


Apesar de ter já viajado por quatro continentes, ao longo de mais de 25 anos, poucos locais me impressionaram tanto como aquele que aqui hoje partilho. Verdadeira janela para as entranhas da Terra, presenteia o visitante com cambiantes coloridos que desafiam a imaginação. À medida que as pupilas se dilatam, habituando o olhar à penumbra que aqui impera, vamos ganhando vislumbres das portentosas forças que estiveram em jogo na formação deste fenómeno vulcânico.




Estamos, como não poderia deixar de ser, no meu arquipélago preferido: Açores. Em reportagem para as Crónicas da Atlântida, que têm por destino, durante este mês de Julho, a ilha Terceira. E o espectáculo decorre non-stop, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Tendo um fraco fotográfico por padrões e abstratos, aqui sinto-me no paraíso. Uma interminável procissão de verdes, amarelos, laranjas, púrpuras, azuis, castanhos, vermelhos e, claro, negros, pintam o cenário irregular que se vai contorcendo pelo cone vulcânico abaixo, revelando sempre novos recantos e diferentes perspectivas. Rochas, musgos, plantas e fungos juntam-se ao cocktail cromático, numa quase overdose visual.

 
Bem-vindos ao Algar do Carvão...!