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16.5.17

Zulmira | pastora montanheira

O dia estava chuvoso. Sombrio, mesmo. O nevoeiro baixo tapava os cumes circundantes e fundia a linha de horizonte a poucas centenas de metros. Desafiando a meteorologia, subíamos encosta acima ao longo da Ribeira das Quelhas, uma das jóias escondidas da Serra da Lousã. À distância esperava-nos uma majestosa cascata, alimentada pela precipitação intensa dos últimos dias, numa Primavera ainda titubeante. Adiante, entre urzes e giestas encardidas pelas agruras do Inverno serrano, um ladrar intimidante começa a ouvir-se, cada vez mais perto, sem que o seu dono se deixasse ver.  De repente surge um robusto rafeiro a um par de metros. E em simultâneo uma voz feminina, firme, chama-o de volta!

Entra em cena Zulmira Henriques. Pastora do Coentral, a aldeia mais próxima, na boca do vale. Primeiro apenas a vemos ao longe, pouco mais que uma mancha de violeta contra os tons ocres da montanha desnuda, fustigada ano após ano por impiedosos incêndios. Ambos nos aproximamos, lentamente, não vá o cachorro duvidar das boas intenções fotográficas.

Os olhos azuis claros faiscavam à medida que nos contava a sua vida, faces rosadas do esforço da subida, com o entusiasmo de quem muito provavelmente falava com alguém pela primeira vez naquele dia: sempre havia vivido ali, tinha um pequeno rebanho de cabras, filhos espalhados pelo país, todos os dias eram passados na serra, alternando com o marido a tarefa do pastoreio e da ordenha, que acontecia ao entardecer. Não duvidei da dureza da sua vida, mas o encanto simples com que falava dela era enternecedor...

No seu casaco violeta até ao joelho, chapéu de chuva verde e gorro de lã clara havia em Zulmira uma elegância inata, uma aura que nem a idade nem a vida dura haviam apagado. Despedimo-nos de coração cheio, gratos pelo privilégio destes encontros fortuitos...


10.7.15

Nas entranhas da Terra


Apesar de ter já viajado por quatro continentes, ao longo de mais de 25 anos, poucos locais me impressionaram tanto como aquele que aqui hoje partilho. Verdadeira janela para as entranhas da Terra, presenteia o visitante com cambiantes coloridos que desafiam a imaginação. À medida que as pupilas se dilatam, habituando o olhar à penumbra que aqui impera, vamos ganhando vislumbres das portentosas forças que estiveram em jogo na formação deste fenómeno vulcânico.




Estamos, como não poderia deixar de ser, no meu arquipélago preferido: Açores. Em reportagem para as Crónicas da Atlântida, que têm por destino, durante este mês de Julho, a ilha Terceira. E o espectáculo decorre non-stop, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Tendo um fraco fotográfico por padrões e abstratos, aqui sinto-me no paraíso. Uma interminável procissão de verdes, amarelos, laranjas, púrpuras, azuis, castanhos, vermelhos e, claro, negros, pintam o cenário irregular que se vai contorcendo pelo cone vulcânico abaixo, revelando sempre novos recantos e diferentes perspectivas. Rochas, musgos, plantas e fungos juntam-se ao cocktail cromático, numa quase overdose visual.

 
Bem-vindos ao Algar do Carvão...!




4.6.14

Resquícios de um passado recente


Já aqui disse que, da minha experiência de viagem pelo Dubai, me ficou a ideia de que há mais alma na cidade do que à primeira vista poderia parecer. Ao passar os olhos pelo conjunto de imagens produzido, chamaram-me a atenção diferentes instantâneos que, retirados do contexto, me poderiam fazer acreditar estar algures num país árabe bem mais convervador e de maior herança histórica.



De visita ao museu da cidade (não sou grande adepto de museus, excepto se forem realmente excepcionais... ou se tiver demasiado tempo nas mãos, como foi o caso), percebi melhor a génese desta metrópole. As animações do crescimento imobiliário década a década são impressionantes! De um pequeno povoado piscatório a um portento financeiro global, em meio século! Curiosamente, embora o peso da pesca hoje seja uma pálida sombra do passado, foi no Creek e na zona de embarcações tradicionais que mais me identifiquei. Não sei se pela luz dourada do ocaso, se pela azáfama das gentes a cruzar incessantemente o braço de mar, algo havia naquela estética de raízes arcaicas que me fez parar e contemplar por um longo período.


O fosso entre passado e presente é ainda mais notório quando se sai do Dubai propriamente dito, em direcção a outros emirados. Tendo como destino Fujairah, na costa Leste, banhada pelo Mar Arábico e tendo em frente o Irão, passei por Sharjah. As diferenças são inicialmente subtis, mas existem. Mulheres menos descobertas, ruas mais sujas, muita areia, construções inacabadas... E mesquitas. Muitas mesquitas, a cada esquina.

Para finalizar este conjunto de textos sobre o Emirado, reuni algumas das fotos que melhor representam, na minha óptica, o que terá sido em tempos esta cidade, na sua vida anterior ao petróleo...


28.5.14

Brilho ofuscante


Não subsistam dúvidas que o Dubai é um festim para os sentidos. A visão de feitos arquitectónicos únicos no mundo entra pelos olhos adentro, o calor do deserto lambe-nos a pele, intenso, os cheiros – a perfume nos grandes centros comerciais, a suor nos souks da zona antiga – bailam no ar, atingindo-nos sem aviso. Na confusão das pequenas ruas de Deira, é-se apertado num abraço amplo de humanidade e nos infinitos restaurantes de rua o paladar é testado ao limite, alternando entre as especiarias fortes que denotam a presença de milhares de indianos e os pratos gourmet importados da distante Europa.



Mas sem dúvida que o que mais encanta, numa visão imediata, é o brilho ofuscante e a opulência dos arranha-céus! Dizem-me que são como cogumelos: em poucas semanas erguem-se monstros verticais da terra estéril, ao ponto de fazerem sombra uns aos outros e de o skyline da cidade se parecer a um código de barras num qualquer supermercado. Na sua base, em ruas que me fazem sentir minúsculo - mas a partir de certo ponto já dessensibilizado - a mescla de gentes continua a circular, incessantemente. Na marina, espartilhadas entre a Sheikh Zayed e a Jumeirah Beach, as torres são às dezenas. Cópias gémeas da Chrysler Tower aparecem algures, tal como um sósia do Big Ben londrino. Mas é o Burj Khalifa quem domina a paisagem. O mais alto edificio do mundo, com 828 metros de altura, 163 pisos, é deslumbrante na sua ostentação, qual Torre de Babel dos tempos modernos. De cima, num miradouro poucas dezenas de metros abaixo do topo, sinto a força dos elementos: chuva intensa (sim, também lá chove!), vento rodopiante e, magnética e assustadora, uma tempestade eléctrica que ilumina o negrume e me faz sentir um pára-raios com pernas! No entanto não se pense que tudo corre bem neste ícone à finança global. 


Há dias escutei uma história que tanto tem de divertido como de sintomático: a administração do edifício, que inclui escritórios, hoteis, restaurantes e, naturalmente, habitações, estava com problemas em cobrar o condomínio (cujo valor desconheço - a minha matemática nem deveria chegar para tantos 0)! Então, encontrou um argumento de peso: cortar o ar condicionado e desligar os elevadores! Solução simples, pragmática e absolutamente eficaz, como convém no paraíso!



22.5.14

Brilho sombrio




No Dubai tudo é superlativo. E há a mania do “maior do mundo”, mais ainda do que entre os portugueses, que se ficam pela “maior árvore de Natal do mundo”, ou a “maior feijoada do mundo”! Naquele território é mesmo tudo à grande: o mais alto edifício do mundo, o maior centro comercial do mundo, o maior hotel de 7 estrelas do mundo, e por aí fora. A cidade é, sem dúvida, uma ode ao engenho humano do sec. XXI, um parque de diversões ao ar livre para engenheiros civis e arquitectos! A quantidade de arranha-céus é impressionante, a diversidade e originalidade dos mesmos também, e as ruas são alindadas por não menos maravilhosas bombas automóveis, que rugem na passagem a verde dos semáforos das largas e aparentemente infinitas avenidas. Uma simples ida às compras mais parece uma visita a uma feira automóvel. Comecemos nos desportivos: Porsche é coisa banal,  Ferraris vêem-se aos pares, Maserattis, Aston Martins e McLarens são avistamentos comuns. Para os mais conservadores,  Rolls Royce e, sobretudo, Bentleys, abundam. Tudo brilha, desde o asfalto iluminado pelas luzes de montras luxuosas, até ao píncaro das torres de cristal.



Mas... mas se sairmos do Downtown, se rumarmos a Deira, à zona dos souks na margem norte do Creek, e sobretudo se formos aos arredores da metrópole, onde as areias do deserto ainda reinam e lutam pela sua honra contra o betão impiedoso, o cenário muda radicalmente. Tal como o tom de pele das gentes que por lá deambulam. E o interesse para um viajante sequioso de autenticidade cultural. Indianos e paquistaneses, filipinas e indonésias, a miríade de nacionalidades e etnias explode como as flores silvestres desabrochando aos primeiros raios de sol primaveril. A percentagem de emiratis (os nacionais dos Emirados Árabes Unidos) é pequena, quando olhamos para a população total do país. São os emigrantes a sua verdadeira força motriz.


Mas são-no na sombra. As diferenças sociais são absolutamente assustadoras: entre os sheiks do petróleo e os tubarões do imobiliário e os trabalhadores da construção civil e amas asiáticas há um fosso que parece inimaginável num território tão pequeno e, aparentemente, tão pacífico. A escravatura, de facto, existe. Mas não como no tempo dos Descobrimentos – os grilhões pesados e ferrugentos são outros agora, mais insidiosos mas não menos grotescos – trabalhadores trazidos ao engano de países pobres e populosos, passaportes apreendidos pelos empregadores, “salários” que por vezes não ultrapassam os $100 mensais, num país onde o custo de vida não é barato, em condições de alojamento desumanas… A lista continua.

E depois há aquela sensação de artificialidade constante, como se tudo fosse de plástico, ilusório, pronto-a-consumir, sem tempo para o tempo lhe emprestar a patine de bom gosto - que, admito, talvez seja uma etnocêntrica deformação europeia…



15.5.14

Um mundo de contrastes


Uma das maiores riquezas deste mundo é a diversidade e variedade cultural, natural e humana que oferece. Numa leitura serôdia, mas ainda assim actual, da icónica obra do jornalista e viajante italiano Tiziano Terzani, Disse-me um adivinho, consta uma citação, que aqui reproduzo: "O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página".

É fácil criar estereótipos, rótulos, caixinhas onde organizar ideias e (pre)conceitos. Recentemente surgiu a possibilidade de visitar o Dubai. Longe de ser um destino de eleição para mim, aproveitei, por diversos motivos, a oportunidade, disposto a ir um pouco mais fundo do que o verniz dos super-carros e dos arranha-céus mostra ao visitante menos atento.


E, apesar de continuar a não pertencer à minha lista de preferências, acabei por descobrir que há mais alma na cidade do que muitos supõem. E um dos elementos que mais sobressai, a diferentes níveis, é o contraste que existe a cada passo que damos. Contraste na construção, contraste nas gentes, contrastes na opulência facilmente visível e na pobreza cuidadosamente escondida. Mas talvez o maior de todos seja o contraste cultural. O Dubai é uma cidade que se ergueu do deserto em poucas décadas graças ao petróleo, invadida posteriormente por legiões de estrangeiros, tanto do Oriente como do Ocidente, em que os choques civilizacionais são gritantes, provocando amiúde conflitos latentes.


O estatuto da mulher na sociedade árabe é, quiçá, o que mais desconforto provoca a um europeu. O Dubai, ainda assim, é muitíssimo mais liberal que a maioria dos seus vizinhos, nomeadamente a Arábia Saudita que, sob a ideologia Wahhabi, lhe nega muitos dos direitos considerados fundamentais nas sociedades ocidentais. Mas a herança da génese árabe lá está: carruagens no metro exclusivas para mulheres, à hora de ponta, taxis de tejadilho rosa com taxistas mulheres e apenas para senhoras, obrigatoriedade do uso de habaya em vários espaços, avisos diversos para a observação da "decência" no vestuário...

Dediquei-me, por curiosidade jornalística, a fotografar, discretamente, como convém nestas paragens, alguns sinais das diferentes dicotomias no Emirado. A primeira série é sobre o género. Outras se seguirão nos próximos dias.

Insha'Allah...


24.4.13

Puro gozo

Gozo. Puro. Simples. Quase infantil.

Foi esta a sensação que invadiu o meu mundo fotográfico nos últimos dias. E porquê? Porque tomei a decisão (algo impulsiva) de me presentear com um objecto que há muito desejava mas que, pelas características muito específicas, hesitava em adquirir. Uma nova máquina fotográfica. Fuji X100s!

Poupo-vos a pormenores técnicos demasiado específicos: basicamente é uma pequena máquina, tipo Canonet, com uma objectiva fixa, 35mm (equivalente), f:2.0, luminosa, sensor APS-C, com controlos manuais mecânicos, metálica, prateada... e com um visor óptico. Bastante semelhante às míticas Leica M que foram escolhidas pelos mais icónicos fotojornalistas do séc. XX, que se mete num bolso largo ou numa pequena bolsa e da qual nos conseguimos até esquecer, até ser precisa.


Um pouco de intra-texto: a fotografia tem sido para mim, ao longo de 16 anos, uma paixão que se tornou profissão, mas sempre lutei para que nunca perdesse essa componente passional que, em qualquer área criativa, é simultaneamente combustível e comburente de um trabalho fresco, significativo, com alguma ponta de originalidade e cunho pessoal. A realidade, porém, nem sempre concorda com esta visão romântica: prazos a cumprir, trabalhos menos interessantes que não podemos recusar, o cansaço inevitável (físico e emocional) de acarretar com a máquina fotográfica diária e constantemente. O desgaste acontece. A forma como lidamos com ele é fulcral. É importantíssimo mantermos um foco, algo que nos faça aumentar o ritmo cardíaco, algo que nos faça sentir vivos enquanto criativos. A verdade, no entanto, é que começava já há algum tempo a sentir dificuldade em encontrar e alimentar tudo isso. Duas mudanças se deram: uma mais significativa e outra menos. Falo-vos agora da segunda: uma simples máquina fotográfica!

Quem acompanha as minhas aulas ter-me-á ouvido muitas vezes dizer que o equipamento é meramente uma ferramenta, e que nunca nos devemos focar demasiado nele, por poder ser uma armadilha que desvia a atenção do que realmente importa. O facto é: em poucos dias a X100s está a revolucionar a minha forma de fotografar e de encarar a fotografia quotidiana e de viagem!

A leveza de carregar uma máquina que é pouco maior que um maço de tabaco, com uma qualidade de imagem fabulosa, com um aspecto absolutamente inofensivo para a maioria dos transeuntes, o design sexy e retro e, sobretudo, o visor óptico que nos cria uma ligação intensa com o tema que fotografamos não se consegue transmitir em especificações técnicas. Simplesmente há que ir para a rua e fazer o gosto ao dedo! Literalmente! A forma como as pessoas (não) reagem ao acto de fotografar é reveladora! Não mais temos os esgares ou olhares ameaçadores habituais ao apontar uma SLR agressiva e fálica, diria que quase se sente uma certa indulgência pelo facto de, aparentemente, estarmos a  manusear um objecto do tempo dos nossos avós!

Em conversa com um amigo, também fotógrafo, que me perguntava "-Então foste pagar um dinheirão para ficares preso a uma única objectiva/distância focal?!", respondi: "-Não! Eu paguei precisamente para me libertar do peso e volume de uma SLR profissional e da dúvida de que objectiva usar ou deixar em casa!". O obturador de cortina é quase inaudível, é suficientemente pequena para não me tapar completamente a cara, e a distância focal de 35mm é, com razão, a mais versátil: suficientemente grande angular para paisagens e ambientes apertados, suficientemente longa para retratos de ambiente ou pormenores relativamente grandes. Quase perfeita.

E libertador é a palavra que melhor me parece descrever a sensação que tenho vivenciado. Alguém me dizia que parecia um menino excitado e contente com o seu brinquedo novo. Sem dúvida! A alegria infantil de nos deslumbrarmos com algo novo, que nos dá prazer e faz sentir bem é algo que aprendemos a dissimular com a idade, porque não é forma de "gente crescida" se comportar mas que, na minha opinião, jamais deveriamos perder! E, para criar algo (seja fotografia, pintura, arquitectura, design... o que for!) precisamos de nos sentir inspirados, soltos, bem com a vida. Normalmente busco tal noutras fontes. Mas, para variar, desta vez a ferramenta é indubitavelmente importante no processo!

Resumindo, e aproveitando um slogan gaseificado: é a pura da loucura!


As imagens deste post são o resultado de apenas uns dias e muitos testes com as definições e modos da X100s, e totalmente OOC (directas da máquina, sem qualquer pós-produção à parte o redimensionamento).