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17.2.18

Teo



Teodoro Quispe. Teo para os amigos. Foi este o nome que mais pronunciei nos dias de ascenção ao Huayna Potosi. E é com ele que termino esta série, dedicada àquela montanha que tanto passou a representar para mim, uma singela homenagem a uma pessoa com que apenas privei escassos dias mas que acabou por ficar no meu coração! 

O Teo é guia de montanha na Bolívia há mais de uma década (encartado, apressa-se a assegurar, de credencial na mão)! Inicialmente de poucas palavras, vai-se tornando mais eloquente com o passar dos dias. Jovem, na casa dos 30, tem já um filho adolescente, que encontramos no campo alto. Trabalha na montanha, na base da cadeia alimentar, segundo diz ele próprio - é porter (carregador) de mantimentos para o refúgio que serve de suporte para o ataque ao pico. 

Vive em El Alto, a grande cidade-satélite de La Paz, que se espraia até perder de vista, no planalto que encima a cratera da capital de facto do mais pobre país da América do Sul, a 4000m de altitude. No meio da confusão que a feira, à porta de casa, provoca, relembra-me que devo comprar pilhas extra para a lanterna frontal e uns snacks para os dias de aclimatação e assalto ao cume. À medida que saímos da metrópole, rapidamente o tijolo caótico das ruas desordenadas dá lugar a vastas extensões de terra ocre, estéril, tornadas ainda mais soturnas pela manhã chuvosa que se apresenta. A certa altura a neve começa a bordejar as curvas mais escuras da estrada, e vamos subindo lentamente a montanha, até chegar aos 4700m, a base da caminhada.

No refúgio, Teo faz um pouco de tudo - trata da logística dos quartos, começa a preparar o almoço, verifica com o guarda as condições da neve e as previsões meteorológicas para o dia seguinte. A parte da tarde será ocupada com um trekking curto, de aclimatação, que culmina na escalada do Glaciar Viejo - notoriamente reduzido, a julgar pelas marcas da moreia, na encosta, largas dezenas de metros acima das nossas cabeças!



Mas é nos dias seguintes que o seu carácter cândido, quase ingénuo mas extremamente profissional, se revela. Na noite anterior à subida o mal de altitude começa a fazer-se sentir e começa a testar a minha convicção quanto à subida. O vento intenso, que parece querer fazer voar metade do precário refúgio, junta-se à festa! Com a subida marcada bem cedo, de forma a chegar ao pico antes do nascer do sol, com a neve mais firme pela descida de temperatura nocturna, arrancamos a um passo aparentemente demasiado lento. Nesta montanha fácil, o grande obstáculo é a altitude e as consequências fisiológicas às quais a maioria dos corpos não está habituado. Aos 5900m sinto que a coordenação dos meus movimentos está longe de ser a desejável num ambiente destes - o vento das crestas é irregular e intenso, sinto-me instável, a bambolear, e peço ao Teo para parar. Com um sorriso endiabrado, continua: "-Até vamos tornar isto mais interessante! Vamos subir já aqui". Levanto o olhar e a escassa luz que já começava a surgir no céu mostra uma encosta quase vertical! Fez-se um click. De repente sinto a adrenalina a percorrer o corpo e o turpor a desvanecer-se com ela. Daqui em diante não havia margem para erros e a atenção redobrada obrigava a um foco que fez desaparecer as dores de cabeça. Sem ter bem noção de quanto faltava ainda (o altímetro do relógio deixou de funcionar, provavelmente devido à baixa temperatura), lá fui subindo, passo após passo, encordado com o Teo, que de tempos a tempos murmurava algo do género "-Está quase!".




A chegada ao pico já aqui a contei. Apenas não falei do abraço sentido que demos, que me ficou na memória juntamente à sensação de superação. Para o Teo era mais um dia de trabalho. Para mim era a concretização de um sonho de criança. A ele o devo, em boa parte. Gracias, Teo!



30.1.18

Nuances da montanha


Por diversos motivos, pessoais e profissionais, tenho estado particularmente exposto a estímulos de montanha nas últimas semanas. Neve, frio, trekking, planos a curto, médio e longo prazo assomam no horizonte e coloram o écran na minha agenda!

Resolvi por isso aproveitar para, revisitando o arquivo, dar continuidade ao tema, na forma de uma selecção de fotografias de paisagens de montanha, captadas durante a ascensão ao Huayna Potosi do passado Verão.




A alta montanha é uma temática que me apaixona desde há muito, ainda que o meu percurso recente não me tenha conduzido tanto lá quanto gostaria. Há algo mágico nessa descoberta visual que desperta a curiosidade, o desafio de chegar além sempre presente... Por isso aqui partilho um conjunto de fragmentos visuais desse elevado recanto da Bolívia, entre os 4700m e os 6088m de altitude.




                



Se tudo correr como planeado, durante este ano terei novidades ainda mais elevadas! :-) O feitiço da montanha é este... há sempre mais uma que nos lança, na brisa forte do amanhecer, subtil mas insidiosamente, a milhares de quilómetros de distância, o seu canto de sereia...

Para terminar, um pequeno vídeo de bastidores da descida no pico, pela aresta principal:




3.11.17

6088m


Pelas 6:40 do dia 4 de Julho de 2017 chegava ao topo do pico Huayna Potosi, na Bolivia. 6088m acima do nível do mar. A esta hora a noite estava ainda cerrada, apenas no horizonte Leste, por cima da selva amazónica, se adivinhava o dealbar do dia. Os -15ºC mal se faziam sentir, os ventos fortes que me acompanharam ao longo de quase toda a subida haviam cessado, como que por magia! À medida que a luz ia enchendo a metade oriental do meu campo de visão a neve ganhava cores indescritíveis, desvendando formas na montanha que não havia visto ainda hoje. A ascensão começara as 1:30, após quatro horas de sono entrecortado, entre o efeito da altitude e a ansiedade pela subida.

Às 23:30 acordava e o vento lá fora assobiava por entre as placas mal montadas do refúgio, ameaçando entrar porta adentro. Pouco tranquilizador para quem duvidada das condições climatéricas. Não voltei a adormecer. Resolvi sair, enfrentar a visão dantesca do gigante branco. A lua, num quarto crescente já avançado, iluminava como se dia se tratasse, reflectindo na neve a sua luz tranquila. À parte o vento, nada mais se escutava.

O campo alto - um refúgio básico, a 5130m de altitude - é a base para o ataque à montanha. 4 a 5 horas de subida, 2 de descida. À medida que as hostes vão acordando, espaço apertado mais parece uma torre de Babel - gente de muitos pontos do globo congrega-se aqui, com o olhar brilhante e garganta seca, sensações comuns em pessoas tão diversas. Nem todos chegarão ao pico, mas estar aqui já é por si só uma conquista!




Com o Teo, meu guia e parceiro nesta empreitada, a quem agradeço e com quem partilho o mérito sa ascensão, preparo-me. A escolha de roupa é fulcral. Demais será um peso e provoca sobreaquecimento e suor, que depois arrefece rapidamente; e pouca arrisca exposição ao frio considerável que se sente no topo. Muita água é fundamental, mantimentos calóricos e, claro, folhas de coca em abundância! Em Roma sê romano!

A subida inicia-se então, a passo lento. Muito lento. Apesar de já ter realizado algumas outras ascensões com idêntico desnível em alta montanha (1000m de desnível positivo), nunca o tinha feito a esta altitude. E embora já estivesse acima dos 3500m há mais de duas semanas, chegando aos 5000m no deserto do Uyuni, não sabia como reagiria o meu corpo ao esforço e sobretudo à altitude. Rapidamente percebi: ainda que com 3 dias de aclimatação, as dores de cabeça intensas depressa se fizeram anunciar.

A certa altura seria-me a caminhar como um zoombie, e receei tropeçar ou sair do caminho - algo fatal nalgumas zonas do percurso! Fui parando, a cada 45 minutos. Não mais de 2 ou 3 minutos de cada vez, para não arrefecer ou perder o ritmo. A certa altura, estaquei. Olhei o Teo nos olhos e confessei que não sabia se estaria em condições de fazer a subida. Ele pôs-me a mão no ombro e com uma suavidade na voz que senti como um toque de magia e que agora me humedece o olhar, disse: "Tu consegues! Eu sinto-o. É normal sentires-te assim, é a altitude. Estamos quase lá." Que há anjos, nunca duvidei. Mas vê-los é raro. Sentir o seu toque ainda mais! Este foi um desses momentos.

O "quase lá", no entanto, eram quase 200 metros em altitude, e a parte mais exigente da ascensão. Uma parede de neve e gelo erguia-se à nossa frente. Só de dia veria a sua total dimensão - e ainda bem!!! Mas pela exigência física e técnica a adrenalina explodiu e de repente todos os sentidos estavam despertos! Os últimos 100 metros foram quase feitos na vertical, crampons espetados de frente, piolet usado para subir o peso do corpo, atenção plena em cada movimento.



A subida ao Huayna Potosi não é tecnicamente difícil (pelo menos quando feita pela rota normal). Há quem diga até que é o 6000 mais acessível do mundo (não sei, nunca subi a nenhum outro). Para mim, era um objectivo que me aliciava há anos, de cada vez que vinha à Bolivia com grupos Nomad, bem visível desde La Paz, isolado, sedutor. A par do Caminho de Santiago, 250km e 9 dias de êxtase e dor que percorri em Março, foi dos maiores desafios pessoais a que me propus.

Não foi o troféu da montanha que me levou a tentar a subida. Esse de pouco ou nada serve. Foi, isso sim, a decisão de fazer algo que nunca tinha feito. De me testar, de ver até onde podia ir, de me questionar e ir para além da minha zona de conforto, expandi-la e, quiçá, voltar de lá maior e mais forte. Interiormente. E não poderia ter tomado melhor decisão! A chegada ao pico, ainda de noite, com as cidades de La Paz e El Alto iluminadas, ao longe, pareceu-me inverosímil. Senti-me fora do meu eu. Como um espectador de mim próprio, do cenário onde me encontrava. Senti uma paz, uma energia, uma plenitude que poucas vezes na vida havia experienciado. A última das quais à chegada a Santiago de Compostela, igualmente de corpo vergado mas de espírito erguido, vertical. Naqueles instantes nada mais importava. Estava absolutamente absorto no agora. Aqui e agora. E como é bom!!! Como nós devíamos focar mais em experiências deste género, implicando ou não desafios físicos!

No próximo domingo tentarei terminar o último e porventura mais difícil dos 3 objectivos a que me propus à entrada dos 40: correr uma maratona. Tal como no Caminho de Santiago como na subida ao Huayna Potosi é o processo que me interessa, mais que o (eventual) sucesso da empreitada. Não é garantido. Mas tudo farei para lá chegar.


12.5.17

David | Artesão Andino


75 minutos. É este o tempo que um pequeno lama de rocha negra leva a criar, do nada até à sua forma final, ícone da cultura andina em formato compacto.

Tudo começa com um assobio. Mais que um assobio, uma brisa melodiosa chega-me aos ouvidos, de origem incerta. Aproximo-me, intrigado. Escuto deliciado, envolvido por todas as emoções que me invadem num dos mais especiais locais de La Paz, a capital não-oficial da Bolívia - o miradouro Killi Killi. Subtilmente, debaixo de um chapéu de aba larga, desbotado pelo sol inclemente dos Andes, um par de lábios em movimentos delicados denuncia-se.



Aproveitando uma curta pausa nesta improvável sinfonia de um homem só, apresento-me. Escuto um - David, placer!, curta resposta embrulhada por um olhar brilhante do meu interlocutor. Pergunto, com interesse genuino, que material é aquele que se move de forma fluída nas suas mãos.
- Basalto, responde.
- E quanto tempo leva a fazer? 
- Una hora e quince minutos, las pequeñas. Arregalo os olhos de espanto e de admiração pelo engenho deste paceño! A beleza simples de tão minusculos objectos, saindo das mãos deste homem de forte presença, que assobia de forma tão bela, faz-me sentir humilde...



11.5.17

Killi Killi

Killi Killi.

Apesar de se encontrar no coração de uma das mais caóticas metrópoles da América do Sul, com má fama provavelmente imerecida, encarrapitado no alto de uma das suas favelas, o local nada de sinistro tem. Tem, sim, uma vista de cortar a respiração. Mostra, sim, uma cidade impossivelmente construída em encostas arenosas. É vigiado, sim, pelo Illimani, o segundo pico mais alto da Bolívia, nevado, à distância, orgulhoso no alto dos seus 6462m.

Meia dúzia de pessoas ciranda por ali: um par de pombinhos adolescentes, visivelmente apaixonados, amassa-se sem cerimónias, num dos bancos de ferro forjado; três japonseses tentam à exaustão encher a máquina fotográfica com fotos em rajada; um polícia de olhar enfadado enche o peito numa tentativa vã de mostrar quem ali manda, sem que ninguém pareça notar na sua presença.


Largos minutos se passam neste deleite, a vista espraiando-se pelo horizonte aberto, enquanto a brisa fresca da montanha provoca pequenos arrepios na pele nua. O sol deixa-se tombar dolentemente por detrás das encostas amareladas do caldeirão natural em que a cidade explodiu, enquanto os glaciares do gigante refulgem os últimos raios solares, num estertor inconsequente, antes da chegada da noite límpida, que se aproxima. Um quoisque de rua ganha tons glamourosos, com as suas lâmpadas de tungsténio e uma multitude de bens que ninguém parece comprar.

É para mim um dos mais especiais locais do epicentro boliviano, pleno de carácter, charme e nostalgia...


24.2.15

SOBRE|VIVER multimedia


Um dos projectos de fotografia de viagem mais ambiciosos que desenvolvi até hoje consubstancia-se num título, de que já terão ouvido falar nestas páginas: SOBRE|VIVER.

Agora que novos horizontes assomam, e que esta iniciativa caminha a passos largos para a sua conclusão, um novo conteúdo vê a luz do dia - a sua página internet. Tendo o Tiago Costa aos comandos da programação - a quem agradeço o intensivo trabalho subjacente à criação de um site deste tipo - é o resultado de uma experiência que considero poder ser a primeira de muitas, na qual procurámos unir de forma multidisciplinar diferentes meios e tecnologias: fotografia, vídeo, texto, audio, enquadradas por entrevistas, citações e notas de campo, compiladas ao longo dos 1000km do rio Beni.

O projecto, tornado possível pelo apoio da Nomad e contando com a National Geographic Portugal como media partner, teve para mim, desde logo, um objectivo, entre muitos outros: ser uma oportunidade de alargar horizontes e forçar a fronteira cada vez mais ténue entre fotografia e vídeo. Proporcionar ao visitante uma experiência algo diferente da fotografia tradicional, dar-lhe uma dimensão mais interactiva (tanto quanto as limitações do meio nos impõem), e complementá-la com o estímulo de um outro sentido que não a visão. Naturalmente nada se aproxima da experiência de estar lá, sentir a roupa colada do corpo, o zumbido dos mosquitos ou a chuva a bombardear a pele. Mas, à falta de teletransporte, esforçámo-nos por trazer ao visitante o que é viver nas margens do rio Beni, o que sentem as suas gentes, como é o quotidiano das populações que se mesclam na paisagem tropical e à qual chamam lar.

O próprio título do projecto remete para essa dualidade entre Homem e Natureza que presenciei a cada curva do rio, em cada rosto que fitei, em cada estória que escutei, a cada passo que na lama dei... Sobrevive-se à Amazónia. E todo o esforço desta expedição se focou precisamente em documentar isso. Numa frase, o projecto é sobre a vivência da sobrevivência.

Visitem a página em: SOBRE|VIVER | Amazónia + Bolívia

29.1.15

100


100. Ou cem, como preferirem.

Hoje marca-se o centésimo post neste blog. Simbólico, naturalmente. Impõe-se parar, inspirar três vezes e olhar atrás, rever alguns dos textos e fotos publicados, avaliar, fazer um ponto de situação.

Quando iniciei este projecto, em 2013, respondendo ao desafio do colega Tiago Costa - a quem tenho também a agradecer a programação do blog - sabia que tal só faria sentido se o levasse a sério. Mesmo a sério. Que fosse algo em que investisse tempo, energias e recursos. Impus a mim próprio uma regularidade mínima - um post semanal, ritmo que só muito excepcionalmente quebrei, aquando das viagens mais longas e em que a disponibilidade ou o acesso à net eram de todo inexistentes. Mas a tarefa teve desde logo um outro fim: o de me impor a mim próprio um ritmo de escrita, um diário das minhas errâncias pelo mundo, algo que desenvolvesse esse dom latente que todos temos - o de escrever. E, intencionalmente, tenho escrito o que me vai na alma. Mais do que descrever locais e eventos, tenho procurado transmitir o que sinto, que sensações e emoções me despertam, aliando o texto à fotografia, minha paixão tornada profissão mas que, como qualquer outra paixão, exige ser alimentada com dedicação e cuidado.

Penso que, subjacente a tudo isto, há também uma vontade de registar acontecimentos que, de outra forma, acabariam inexoravelmente por se perder na neblina da memória. A quantidade de informação com que somos constantemente bombardeados, com a permanente estimulação dos sentidos, que nos acicata a alma, tem imensas virtudes - mas a selectividade não é uma delas. Daí o recolhimento que a tarefa de escrever implica ser um bálsamo de abrandamento do cavalgante ritmo quotidiano a que, confesso, amiúde, me sinto quase soçobrar...

Decidi hoje fazer uma tarefa complicada, porque intrinsecamente subjectiva: fazer um TOP 5 dos posts mais significativos e relevantes, na minha óptica. Curiosamente, coincide com 5 países diferentes, 5 realidades díspares mas que, lá no fundo, compartilham e espelham a maravilhosa riqueza que a Humanidade tem para oferecer: Brasil, Bolívia, Polónia, Dubai e Portugal.

Sem uma ordem particular, abaixo elenco os links, lista à qual faltam diversos preferidos, mas que não quis alongar. Se alguém discordar, esteja à vontade de sugerir uma outra selecção, nos comentários :-).

Portugal
http://blog.antonioluiscampos.com/2013/06/eu-e-o-vinho-e-o-meu-avo-e-minha-filha.html

Bolívia
http://blog.antonioluiscampos.com/2014/02/beni-mergulho-num-quotidiano-remoto.html

Dubai
http://blog.antonioluiscampos.com/2014/05/brilho-sombrio.html

Brasil
http://blog.antonioluiscampos.com/2014/02/amazonas-jugular-do-brasil.html

Polónia
http://blog.antonioluiscampos.com/2013/08/um-pais-que-le.html


16.1.15

Táxis, essa enciclopédia da vida!


Táxis.

E taxistas.

Sinto uma relação de amor-ódio por eles. Por um lado, é universal a tentativa de enganar os clientes, da Europa às Américas, de África à Ásia. Quantas vezes me tentaram acrescentar meia dúzia de € à corrida no trajecto Portela - Gare do Oriente, depois de ter cruzado meio mundo?! Mas, por outro lado, são uma fonte de sabedoria popular, levando-nos a descobrir insuspeitas pérolas nos mais improváveis destinos!

Recentemente aconteceu em La Paz. Nuestra Senhora de La Paz, para ser mais correcto. A maior cidade boliviana (ainda que não seja a capital), é a paragem final da viagem que lidero com a Nomad na América do Sul. Ao acompanhar uma das viajantes ao aeroporto, deparámo-nos com uma enorme manifestação. Mais uma. La Paz é conhecida como a capital das greves e das manifestações! Desta vez eram os operários de uma mega-empresa têxtil que, após ter sido nacionalizada por Evo Morales, passou de 1200 funcionários a 5000... resultando em 4 meses de atraso no pagamento dos salários e consequente série de manifestações, com direito a policia de choque, petardos, bloqueios de trânsito e tudo a que se tem direito nestas ocasiões festivas!


Voltando ao nosso amigo taxista, conduzindo furiosamente por entre o caos do tráfego paceño, qual graciosa prima dona volteando num palco só para si, indica-me que não poderemos ir pela via rápida até ao aeroporto. Subimos pelas encostas, tranquiliza-me. Felizmente tinha calculado 3 horas de margem para o voo, portanto não me preocupei, recostando-me no banco traseiro de um Toyota a cair de velho, como se de um Rolls Royce se tratasse e o condutor fosse o Ambrósio dos Ferrero Roché, sempre prestes a fazer aparecer uma guloseima!

E a guloseima surgiu, um par de minutos depois. Subindo custosamente por ruas tão empinadas que até São Tomé - o incrédulo que só acreditava vendo - teria dificuldade em atestar existirem, apontámos às favelas das encostas de La Paz. Ao contrário de muitas outras cidades sul americanas, em que os centros foram tomados pela pobreza e são hoje dominadas pela droga e crime, com as classes altas a debandarem para os subúrbios, a metrópole boliviana segue uma lógica inversa. É nos bairros de tijolo, inacabados, nas periferias do caldeirão, que a miséria grassa. Por isso esta viagem tinha tudo para ser interessante, e uma muito bem-vinda oportunidade de mergulhar, ainda que de passagem, por uma realidade à qual eu não tivera ainda acesso, mas que há muito me despertava curiosidade.



E, ao virar de uma esquina, a rua metamorfoseia-se! Num ápice, como se por artes mágicas, os passeios enchem-se de cor, formas e conteúdo. Conduzíamos agora num mercado de frescos a céu aberto, com cenouras, batatas e beterrabas a competirem entre si, de cores vibrantes, lavadas pelas gotas pesadas de uma chuva inesperada, densa, numa cidade onde raramente chove! A estrada havia sido tomada por vendedores, camiões, bicicletas, transeuntes, taxis, cães vadios e tudo o que mais se possa imaginar! Tive vontade de parar e saltar a pés juntos neste cenário, esquecendo quem era, a cor da minha pele, de onde vinha e para onde ia. Concentrei-me em captar, apenas com o iPhone, esquissos desta cena quase bíblica, absorvendo na retina a experiência...

Sobre o acto de viajar foram ditos, escritos e apregoados infinitos lugares-comuns. Mas estes fugazes minutos dentro de um táxi decrépito ficaram-me gravados na alma de uma forma pungente, crua, real. Foi, de facto, um banho de realidade. Um pequeno terramoto cujas réplicas me fariam tremer de choque dias mais tarde, meio globo para Leste, a muitas galáxias de distância social e económica, no coração da Europa... Outras reflexões, muito em breve.




2.12.14

Cemitérios


Não gosto de cemitérios. Particularmente dos católicos. Acho-os locais pesados, soturnos, barrocos e estéreis, territórios em que se carpem dores terrenas em vez da libertação de uma vida. O cristianismo (e, por extensão, o mundo ocidental) lida muito mal com a morte. Fazemos de conta que ela não existe. Negamos a sua aproximação, travamos uma luta perdida à partida com um facto da vida e, em vez de o tentar aceitar com a sua inevitabilidade, despendemos energias imensas que só aumentam o vazio que, mais cedo que tarde a maioria das vezes, se instala quando alguém querido parte.

Invejo as culturas orientais, para quem a reincarnação é um dado adquirido e que vêem a morte, ainda que com dor, como uma etapa, uma passagem para uma outra dimensão que, desconhecendo-se os seus contornos exactos, é apresentada como melhor, mais pura, mais pacífica.

E aprecio os cemitérios protestantes, vastas expansões de terrenos ajardinados, entre árvores frondosas e em que a natureza, ainda que adaptada, não desaparece. Há espaço, por exemplo nos Estados Unidos - dir-me-ão - algo escasso na Europa. Talvez sim... Mas foi num território inesperado que encontrei um dos mais espectaculares cemitérios que até hoje me foi dado ver. As almas que lá encontrei não eram penadas. Eram de carcaças de um mundo em extinção, comido na voragem do transporte privado, individualista e egoísta: o da ferrovia. Cemitério de comboios, lembrança pungente de um tempo em que as estradas eram limitadas e locais, em vez de omnipresentes e internacionais, espaço em que os corpos das locomotivas se revestem de uma ferrugem que, embora charmosa, não deixa de ser corrosiva, desfazendo a sua presença terrena na eterna alternância dos dias e das noites, das chuvas e das secas, do inverno e do estio...




Chegar ao amanhecer a um local como este, com o sol a raiar o horizonte plano do deserto, em que o frio invisível é absolutamente cortante e nos faz pensar até que ponto a bola amarela que se ergue no céu, de um azul celeste sem mácula, é verdadeiramente a mesma que nos aquece em latitudes (e sobretudo altitudes) mais amenas, é um convite à introspecção. Tocar ao de leve as texturas férreas destes corpos exangues, observar os cambiantes das suas tonalidades, imaginar, de olhos semi-cerrados, o rugir dos seus motores em tempos idos, fornecendo uma linha vital para as populações de Uyuni, na linha que liga este entreposto do sul da Bolívia - ainda hoje - com Oruro e daí com a capital-de-facto, La Paz. As minas da região serão provavelmente a razão pela qual ainda há via férrea até aqui. Aliás, a riqueza do subsolo é tanto uma benção como uma maldição para os territórios meridionais da Bolívia: foi em parte por ela que o país perdeu acesso ao mar nos finais do século XIX, na Guerra do Pacífico travada e perdida com o Chile.

Ao deixar para trás as imponentes silhuetas de vagões e máquinas ferroviárias, em direcção ao Sul, cheirando já o pó que sopra do deserto do Atacama, viajo mentalmente para Portugal e para a lenta agonia que, também aqui, o comboio sofre. Linhas de bitola reduzida, como a do Vouga ou, mais célebre, a do Tua, são chacinadas por interesses económicos dúbios, levando com elas, para a cova, um património industrial que se torna já cultural, submergindo o trabalho de duros homens que, à força de mãos e dinamite, construíram algumas das mais belas ferrovias do mundo...


13.1.14

América do Sul, por terras de Manco Capác


Manco Capác.

O nome do primeiro e mitológico imperador Inca, nascido na Ilha do Sol, o berço da mais poderosa civilização pré-colombiana da América do Sul, não dirá muito a quem está a meio mundo de distância. Onde me encontro, porém, representa o esplendor passado de uma cultura que foi arrasada sem misericórdia por Francisco Pizarro, no Séc. XVI.

Os Andes, e em particular o Peru e a Bolívia representavam, desde há muito, um destino que bailava no meu imaginário! Hoje, no final de uma viagem que durou quase 3 semanas, sinto esse sonho realizado. E, ao contrário do que muitas vezes acontece quando perseguimos quimeras, a realidade superou a imaginação! É impressionante a sensação de que o que fizemos há apenas um par de dias pareça ter acontecido há semanas atrás!

Apesar do cansaço provocado por este percurso de mochila às costas a um ritmo alucinante e das sequelas físicas deixadas pela altitude (que ultrapassou os 5000m de altitude, e quase sempre acima dos 3000m, temperada ainda pelo frio nocturno do deserto)... tudo vale a pena!

São milhares as fotografias que me levarão certamente longos dias a editar, mas a jornada contou com tantos pontos altos que quase se torna difícil enumerá-los sem correr o risco de esquecer algum...



Tudo começou ao mirar o Pacífico em Lima, contemplando o ocaso e adivinhando a Ásia na linha fina do horizonte... Depois, a companhia de leões marinhos e incontáveis aves marinhas em Paracas, a que se seguiu um banho nesse grande e tranquilo oceano, com o famoso ceviche à espera numa esplanada junto à praia. Nazca, para além das famosas e misteriosas linhas, conta com os mais bizarros tunings automóveis, em mínimos Daewoo Matiz de primeira geração! Cusco, o umbigo do mundo e capital do império Inca, é uma jóia arquitectónica e histórica inolvidável - a começar pelo almoço no mercado, num inenarrável menu a inacreditável preço! Machu Picchu, por seu lado, faz jus à fama. Apesar das hordas de turistas asiáticos, a magia sente-se. Subir ao Waynapicchu, o monte sobranceiro à cidadela que coroa o Vale Sagrado é, diria, uma experiência iniciática! O Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, com as suas ilhas flutuantes, Taquile e Elias, o nosso anfitrião, e a Ilha do Sol, a tal onde Manco Capác veio à Terra, são de um outro mundo, no qual um simples jogo de futebol de 20 minutos com jovens locais nos deixa prostrados mas felizes como crianças... E, para culminar, o Salar de Uyuni, enorme extensão de sal puro, contíguo ao deserto de Atacama, com os vulcões chilenos a espreitar à distância! La Paz, cidade surreal encaixada em encostas impressionantes, marca pelo ambiente, mais do que pelo urbanismo, e acolhe-nos humilde e autêntica...!

Tanta, tanta experiência concentrada num tão curto espaço de tempo deixa-me atordoado. Gosto da sensação. Sinto que terei semanas ou meses para o digerir, lenta e delicadamente.

Mas isso terá de esperar. Amanhã parto para a Amazónia. Rurrenabaque, nome simpático e de difícil pronúncia aguarda-me, porta de entrada na selva boliviana. Ao longo de quase um mês percorrerei 3 fantásticos rios: o Beni, ainda na Bolívia, o Madeira, já no Brasil, e o portentoso Amazonas, de Manaus a Belém.

Mais notícias assim que possível :-).

Até lá...!