2.12.14

Cemitérios


Não gosto de cemitérios. Particularmente dos católicos. Acho-os locais pesados, soturnos, barrocos e estéreis, territórios em que se carpem dores terrenas em vez da libertação de uma vida. O cristianismo (e, por extensão, o mundo ocidental) lida muito mal com a morte. Fazemos de conta que ela não existe. Negamos a sua aproximação, travamos uma luta perdida à partida com um facto da vida e, em vez de o tentar aceitar com a sua inevitabilidade, despendemos energias imensas que só aumentam o vazio que, mais cedo que tarde a maioria das vezes, se instala quando alguém querido parte.

Invejo as culturas orientais, para quem a reincarnação é um dado adquirido e que vêem a morte, ainda que com dor, como uma etapa, uma passagem para uma outra dimensão que, desconhecendo-se os seus contornos exactos, é apresentada como melhor, mais pura, mais pacífica.

E aprecio os cemitérios protestantes, vastas expansões de terrenos ajardinados, entre árvores frondosas e em que a natureza, ainda que adaptada, não desaparece. Há espaço, por exemplo nos Estados Unidos - dir-me-ão - algo escasso na Europa. Talvez sim... Mas foi num território inesperado que encontrei um dos mais espectaculares cemitérios que até hoje me foi dado ver. As almas que lá encontrei não eram penadas. Eram de carcaças de um mundo em extinção, comido na voragem do transporte privado, individualista e egoísta: o da ferrovia. Cemitério de comboios, lembrança pungente de um tempo em que as estradas eram limitadas e locais, em vez de omnipresentes e internacionais, espaço em que os corpos das locomotivas se revestem de uma ferrugem que, embora charmosa, não deixa de ser corrosiva, desfazendo a sua presença terrena na eterna alternância dos dias e das noites, das chuvas e das secas, do inverno e do estio...




Chegar ao amanhecer a um local como este, com o sol a raiar o horizonte plano do deserto, em que o frio invisível é absolutamente cortante e nos faz pensar até que ponto a bola amarela que se ergue no céu, de um azul celeste sem mácula, é verdadeiramente a mesma que nos aquece em latitudes (e sobretudo altitudes) mais amenas, é um convite à introspecção. Tocar ao de leve as texturas férreas destes corpos exangues, observar os cambiantes das suas tonalidades, imaginar, de olhos semi-cerrados, o rugir dos seus motores em tempos idos, fornecendo uma linha vital para as populações de Uyuni, na linha que liga este entreposto do sul da Bolívia - ainda hoje - com Oruro e daí com a capital-de-facto, La Paz. As minas da região serão provavelmente a razão pela qual ainda há via férrea até aqui. Aliás, a riqueza do subsolo é tanto uma benção como uma maldição para os territórios meridionais da Bolívia: foi em parte por ela que o país perdeu acesso ao mar nos finais do século XIX, na Guerra do Pacífico travada e perdida com o Chile.

Ao deixar para trás as imponentes silhuetas de vagões e máquinas ferroviárias, em direcção ao Sul, cheirando já o pó que sopra do deserto do Atacama, viajo mentalmente para Portugal e para a lenta agonia que, também aqui, o comboio sofre. Linhas de bitola reduzida, como a do Vouga ou, mais célebre, a do Tua, são chacinadas por interesses económicos dúbios, levando com elas, para a cova, um património industrial que se torna já cultural, submergindo o trabalho de duros homens que, à força de mãos e dinamite, construíram algumas das mais belas ferrovias do mundo...


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