Mostrar mensagens com a etiqueta Dubai. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dubai. Mostrar todas as mensagens

29.1.15

100


100. Ou cem, como preferirem.

Hoje marca-se o centésimo post neste blog. Simbólico, naturalmente. Impõe-se parar, inspirar três vezes e olhar atrás, rever alguns dos textos e fotos publicados, avaliar, fazer um ponto de situação.

Quando iniciei este projecto, em 2013, respondendo ao desafio do colega Tiago Costa - a quem tenho também a agradecer a programação do blog - sabia que tal só faria sentido se o levasse a sério. Mesmo a sério. Que fosse algo em que investisse tempo, energias e recursos. Impus a mim próprio uma regularidade mínima - um post semanal, ritmo que só muito excepcionalmente quebrei, aquando das viagens mais longas e em que a disponibilidade ou o acesso à net eram de todo inexistentes. Mas a tarefa teve desde logo um outro fim: o de me impor a mim próprio um ritmo de escrita, um diário das minhas errâncias pelo mundo, algo que desenvolvesse esse dom latente que todos temos - o de escrever. E, intencionalmente, tenho escrito o que me vai na alma. Mais do que descrever locais e eventos, tenho procurado transmitir o que sinto, que sensações e emoções me despertam, aliando o texto à fotografia, minha paixão tornada profissão mas que, como qualquer outra paixão, exige ser alimentada com dedicação e cuidado.

Penso que, subjacente a tudo isto, há também uma vontade de registar acontecimentos que, de outra forma, acabariam inexoravelmente por se perder na neblina da memória. A quantidade de informação com que somos constantemente bombardeados, com a permanente estimulação dos sentidos, que nos acicata a alma, tem imensas virtudes - mas a selectividade não é uma delas. Daí o recolhimento que a tarefa de escrever implica ser um bálsamo de abrandamento do cavalgante ritmo quotidiano a que, confesso, amiúde, me sinto quase soçobrar...

Decidi hoje fazer uma tarefa complicada, porque intrinsecamente subjectiva: fazer um TOP 5 dos posts mais significativos e relevantes, na minha óptica. Curiosamente, coincide com 5 países diferentes, 5 realidades díspares mas que, lá no fundo, compartilham e espelham a maravilhosa riqueza que a Humanidade tem para oferecer: Brasil, Bolívia, Polónia, Dubai e Portugal.

Sem uma ordem particular, abaixo elenco os links, lista à qual faltam diversos preferidos, mas que não quis alongar. Se alguém discordar, esteja à vontade de sugerir uma outra selecção, nos comentários :-).

Portugal
http://blog.antonioluiscampos.com/2013/06/eu-e-o-vinho-e-o-meu-avo-e-minha-filha.html

Bolívia
http://blog.antonioluiscampos.com/2014/02/beni-mergulho-num-quotidiano-remoto.html

Dubai
http://blog.antonioluiscampos.com/2014/05/brilho-sombrio.html

Brasil
http://blog.antonioluiscampos.com/2014/02/amazonas-jugular-do-brasil.html

Polónia
http://blog.antonioluiscampos.com/2013/08/um-pais-que-le.html


4.6.14

Resquícios de um passado recente


Já aqui disse que, da minha experiência de viagem pelo Dubai, me ficou a ideia de que há mais alma na cidade do que à primeira vista poderia parecer. Ao passar os olhos pelo conjunto de imagens produzido, chamaram-me a atenção diferentes instantâneos que, retirados do contexto, me poderiam fazer acreditar estar algures num país árabe bem mais convervador e de maior herança histórica.



De visita ao museu da cidade (não sou grande adepto de museus, excepto se forem realmente excepcionais... ou se tiver demasiado tempo nas mãos, como foi o caso), percebi melhor a génese desta metrópole. As animações do crescimento imobiliário década a década são impressionantes! De um pequeno povoado piscatório a um portento financeiro global, em meio século! Curiosamente, embora o peso da pesca hoje seja uma pálida sombra do passado, foi no Creek e na zona de embarcações tradicionais que mais me identifiquei. Não sei se pela luz dourada do ocaso, se pela azáfama das gentes a cruzar incessantemente o braço de mar, algo havia naquela estética de raízes arcaicas que me fez parar e contemplar por um longo período.


O fosso entre passado e presente é ainda mais notório quando se sai do Dubai propriamente dito, em direcção a outros emirados. Tendo como destino Fujairah, na costa Leste, banhada pelo Mar Arábico e tendo em frente o Irão, passei por Sharjah. As diferenças são inicialmente subtis, mas existem. Mulheres menos descobertas, ruas mais sujas, muita areia, construções inacabadas... E mesquitas. Muitas mesquitas, a cada esquina.

Para finalizar este conjunto de textos sobre o Emirado, reuni algumas das fotos que melhor representam, na minha óptica, o que terá sido em tempos esta cidade, na sua vida anterior ao petróleo...


28.5.14

Brilho ofuscante


Não subsistam dúvidas que o Dubai é um festim para os sentidos. A visão de feitos arquitectónicos únicos no mundo entra pelos olhos adentro, o calor do deserto lambe-nos a pele, intenso, os cheiros – a perfume nos grandes centros comerciais, a suor nos souks da zona antiga – bailam no ar, atingindo-nos sem aviso. Na confusão das pequenas ruas de Deira, é-se apertado num abraço amplo de humanidade e nos infinitos restaurantes de rua o paladar é testado ao limite, alternando entre as especiarias fortes que denotam a presença de milhares de indianos e os pratos gourmet importados da distante Europa.



Mas sem dúvida que o que mais encanta, numa visão imediata, é o brilho ofuscante e a opulência dos arranha-céus! Dizem-me que são como cogumelos: em poucas semanas erguem-se monstros verticais da terra estéril, ao ponto de fazerem sombra uns aos outros e de o skyline da cidade se parecer a um código de barras num qualquer supermercado. Na sua base, em ruas que me fazem sentir minúsculo - mas a partir de certo ponto já dessensibilizado - a mescla de gentes continua a circular, incessantemente. Na marina, espartilhadas entre a Sheikh Zayed e a Jumeirah Beach, as torres são às dezenas. Cópias gémeas da Chrysler Tower aparecem algures, tal como um sósia do Big Ben londrino. Mas é o Burj Khalifa quem domina a paisagem. O mais alto edificio do mundo, com 828 metros de altura, 163 pisos, é deslumbrante na sua ostentação, qual Torre de Babel dos tempos modernos. De cima, num miradouro poucas dezenas de metros abaixo do topo, sinto a força dos elementos: chuva intensa (sim, também lá chove!), vento rodopiante e, magnética e assustadora, uma tempestade eléctrica que ilumina o negrume e me faz sentir um pára-raios com pernas! No entanto não se pense que tudo corre bem neste ícone à finança global. 


Há dias escutei uma história que tanto tem de divertido como de sintomático: a administração do edifício, que inclui escritórios, hoteis, restaurantes e, naturalmente, habitações, estava com problemas em cobrar o condomínio (cujo valor desconheço - a minha matemática nem deveria chegar para tantos 0)! Então, encontrou um argumento de peso: cortar o ar condicionado e desligar os elevadores! Solução simples, pragmática e absolutamente eficaz, como convém no paraíso!



22.5.14

Brilho sombrio




No Dubai tudo é superlativo. E há a mania do “maior do mundo”, mais ainda do que entre os portugueses, que se ficam pela “maior árvore de Natal do mundo”, ou a “maior feijoada do mundo”! Naquele território é mesmo tudo à grande: o mais alto edifício do mundo, o maior centro comercial do mundo, o maior hotel de 7 estrelas do mundo, e por aí fora. A cidade é, sem dúvida, uma ode ao engenho humano do sec. XXI, um parque de diversões ao ar livre para engenheiros civis e arquitectos! A quantidade de arranha-céus é impressionante, a diversidade e originalidade dos mesmos também, e as ruas são alindadas por não menos maravilhosas bombas automóveis, que rugem na passagem a verde dos semáforos das largas e aparentemente infinitas avenidas. Uma simples ida às compras mais parece uma visita a uma feira automóvel. Comecemos nos desportivos: Porsche é coisa banal,  Ferraris vêem-se aos pares, Maserattis, Aston Martins e McLarens são avistamentos comuns. Para os mais conservadores,  Rolls Royce e, sobretudo, Bentleys, abundam. Tudo brilha, desde o asfalto iluminado pelas luzes de montras luxuosas, até ao píncaro das torres de cristal.



Mas... mas se sairmos do Downtown, se rumarmos a Deira, à zona dos souks na margem norte do Creek, e sobretudo se formos aos arredores da metrópole, onde as areias do deserto ainda reinam e lutam pela sua honra contra o betão impiedoso, o cenário muda radicalmente. Tal como o tom de pele das gentes que por lá deambulam. E o interesse para um viajante sequioso de autenticidade cultural. Indianos e paquistaneses, filipinas e indonésias, a miríade de nacionalidades e etnias explode como as flores silvestres desabrochando aos primeiros raios de sol primaveril. A percentagem de emiratis (os nacionais dos Emirados Árabes Unidos) é pequena, quando olhamos para a população total do país. São os emigrantes a sua verdadeira força motriz.


Mas são-no na sombra. As diferenças sociais são absolutamente assustadoras: entre os sheiks do petróleo e os tubarões do imobiliário e os trabalhadores da construção civil e amas asiáticas há um fosso que parece inimaginável num território tão pequeno e, aparentemente, tão pacífico. A escravatura, de facto, existe. Mas não como no tempo dos Descobrimentos – os grilhões pesados e ferrugentos são outros agora, mais insidiosos mas não menos grotescos – trabalhadores trazidos ao engano de países pobres e populosos, passaportes apreendidos pelos empregadores, “salários” que por vezes não ultrapassam os $100 mensais, num país onde o custo de vida não é barato, em condições de alojamento desumanas… A lista continua.

E depois há aquela sensação de artificialidade constante, como se tudo fosse de plástico, ilusório, pronto-a-consumir, sem tempo para o tempo lhe emprestar a patine de bom gosto - que, admito, talvez seja uma etnocêntrica deformação europeia…



15.5.14

Um mundo de contrastes


Uma das maiores riquezas deste mundo é a diversidade e variedade cultural, natural e humana que oferece. Numa leitura serôdia, mas ainda assim actual, da icónica obra do jornalista e viajante italiano Tiziano Terzani, Disse-me um adivinho, consta uma citação, que aqui reproduzo: "O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página".

É fácil criar estereótipos, rótulos, caixinhas onde organizar ideias e (pre)conceitos. Recentemente surgiu a possibilidade de visitar o Dubai. Longe de ser um destino de eleição para mim, aproveitei, por diversos motivos, a oportunidade, disposto a ir um pouco mais fundo do que o verniz dos super-carros e dos arranha-céus mostra ao visitante menos atento.


E, apesar de continuar a não pertencer à minha lista de preferências, acabei por descobrir que há mais alma na cidade do que muitos supõem. E um dos elementos que mais sobressai, a diferentes níveis, é o contraste que existe a cada passo que damos. Contraste na construção, contraste nas gentes, contrastes na opulência facilmente visível e na pobreza cuidadosamente escondida. Mas talvez o maior de todos seja o contraste cultural. O Dubai é uma cidade que se ergueu do deserto em poucas décadas graças ao petróleo, invadida posteriormente por legiões de estrangeiros, tanto do Oriente como do Ocidente, em que os choques civilizacionais são gritantes, provocando amiúde conflitos latentes.


O estatuto da mulher na sociedade árabe é, quiçá, o que mais desconforto provoca a um europeu. O Dubai, ainda assim, é muitíssimo mais liberal que a maioria dos seus vizinhos, nomeadamente a Arábia Saudita que, sob a ideologia Wahhabi, lhe nega muitos dos direitos considerados fundamentais nas sociedades ocidentais. Mas a herança da génese árabe lá está: carruagens no metro exclusivas para mulheres, à hora de ponta, taxis de tejadilho rosa com taxistas mulheres e apenas para senhoras, obrigatoriedade do uso de habaya em vários espaços, avisos diversos para a observação da "decência" no vestuário...

Dediquei-me, por curiosidade jornalística, a fotografar, discretamente, como convém nestas paragens, alguns sinais das diferentes dicotomias no Emirado. A primeira série é sobre o género. Outras se seguirão nos próximos dias.

Insha'Allah...