4.2.14

Amazonas, a jugular do Brasil



The mighty Amazon!

O mais caudaloso e, segundo alguns, o mais longo rio à face da Terra, que desde as altas terras andinas se espraia pela maior mancha de floresta tropical do planeta rasgando a paisagem em tons de ocre e verde. Tudo em si é superlativo. A escala, a distância, o volume, a biodiversidade...

Após ter descido o rio Beni, ainda na Bolívia, a nova etapa consistia em chegar e navegar o Amazonas. De Riberalta viajei até Guajará-Mirim, fronteira com o Brasil, e daí até Porto Velho, por terra, dado que na zona de confluência dos rios Beni, Madre de Dios e Marmoré a navegação é difícil, ou até impossível. E em Porto Velho aconteceu aquilo que acontece a quem viaja independentemente em destinos remotos e com fracas comunicações: por poucas horas perdi o barco (que saía Sábado à noite), sendo que o seguinte partia... 4ª feira! Nada como respirar fundo, saborear o ar condicionado do hotel Regina e tirar a barriga de misérias, após a dieta franciscana a que me havia submetido nos dias anteriores. O grupo alterara-se entretanto: eu, o Inácio e o Tiago mantinhamo-nos, mas o Eduardo regressara a La Paz. A Leninha estava agora connosco.



E rapidamente fomos apresentados ao "Dois Irmãos", o nosso transporte até ao Amazonas. Já atracado no porto, fui informado que era possível montar as redes e, se quisessemos, dormir lá gratuitamente. Agradecemos, mas achámos que as noites de viagem vindouras seriam suficientes. E foram! No dia combinado, de manhã, lá estávamos os quatro. Após uma acesa disputa pelos lugares que entretanto nos tinham sido subtraídos, lá nos instalámos, documentando a azáfama de dezenas de estivadores que carregavam à cabeça massivos sacos de farinha, cebolas e batatas. Os corpos esbeltos, musculados e de pele acobreada, brilhante pelo suor que escorria abundante, recordavam-me a herança deixada pelos genes africanos. No convés, a penumbra reinava. Fui convidado a partilhar aquele espaço. Também eu suava, mas sem a sua graciosidade, de movimentos e formas.

Pouco depois da hora de almoço o capitão do barco accionou a buzina e o silvo cortou o ar pesado, rompendo a cortina de chuva grossa que entretanto se abatia sobre a cidade. Dejá vu, semanas atrás, em Rurrenabaque, a partida fizera-se sob chuva torrencial, mas os deuses da Natureza foram benévolos connosco no resto da viagem. Bom presságio, diria eu.





Durante os dias seguintes o passar do tempo voltou a abrandar. O ritmo era outro, quase 200 pessoas num espaço diminuto, em que a intimidade de rotinas como lavar os dentes ou trocar de roupa passavam a ser partilhadas por tantas almas de idades, cores e origens tão diversas, reduzidos a uma igualdade que raras vezes se experiencia. O rio Madeira, esse, escorria sem pressas em direcção ao Amazonas, a jusante de Manaus, nosso destino, à medida que povoados e nuvens percorriam o horizonte, ao som de um forró roufenho que colunas velhas debitavam junto ao bar, no deck superior. Mas até nesta pacatez havia espaço para o glamour... De repente, à noite, após uma refeição cuja única variável era o tipo de carne, tendo por denominador comum o arroz branco e o feijão preto, as jovens brasileiras desencantavam nas suas coloridas e espartanas redes maquilhagem e roupas tão vistosas quanto diminutas, embonecando-se para um público inexistente...

E assim se sucediam os dias, dolentes como o ar que nos colava a pele ao tecido de uma indumentária que não mudava.



Finalmente, a meio da noite, o barco deu um solavanco e, entre o balancear periclitante da rede, entreabrindo os olhos sem vontade, vi a grande cidade na margem norte do grande rio. Manaus, com quase 2 milhões de habitantes, a maior cidade da Amazónia e uma ilha num oceano verde, para onde quase tudo tem de ser transportado de fora. Chegáramos. Mas nem por isso o navio se esvaziou. A maioria esperou pela manhã. Tal como eu, que dele me despedi com um misto de alegria e de saudade por antecipação. Havia-me entregue em segurança - apesar de um cadastro onde se incluem prisões por transporte de droga e três naufrágios parciais ao longo dos anos! E ainda de uma troca de hélice a meio da viagem - coisa de somenos importância, segundo o capitão...

Um sonho de longa data havia sido concretizado. O Amazonas estava alcançado, navegado, vivido. Mas não conquistado - porque é, sem dúvida, uma daquelas entidades supremas, indomáveis, inconquistáveis.


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