3.11.17

6088m


Pelas 6:40 do dia 4 de Julho de 2017 chegava ao topo do pico Huayna Potosi, na Bolivia. 6088m acima do nível do mar. A esta hora a noite estava ainda cerrada, apenas no horizonte Leste, por cima da selva amazónica, se adivinhava o dealbar do dia. Os -15ºC mal se faziam sentir, os ventos fortes que me acompanharam ao longo de quase toda a subida haviam cessado, como que por magia! À medida que a luz ia enchendo a metade oriental do meu campo de visão a neve ganhava cores indescritíveis, desvendando formas na montanha que não havia visto ainda hoje. A ascensão começara as 1:30, após quatro horas de sono entrecortado, entre o efeito da altitude e a ansiedade pela subida.

Às 23:30 acordava e o vento lá fora assobiava por entre as placas mal montadas do refúgio, ameaçando entrar porta adentro. Pouco tranquilizador para quem duvidada das condições climatéricas. Não voltei a adormecer. Resolvi sair, enfrentar a visão dantesca do gigante branco. A lua, num quarto crescente já avançado, iluminava como se dia se tratasse, reflectindo na neve a sua luz tranquila. À parte o vento, nada mais se escutava.

O campo alto - um refúgio básico, a 5130m de altitude - é a base para o ataque à montanha. 4 a 5 horas de subida, 2 de descida. À medida que as hostes vão acordando, espaço apertado mais parece uma torre de Babel - gente de muitos pontos do globo congrega-se aqui, com o olhar brilhante e garganta seca, sensações comuns em pessoas tão diversas. Nem todos chegarão ao pico, mas estar aqui já é por si só uma conquista!




Com o Teo, meu guia e parceiro nesta empreitada, a quem agradeço e com quem partilho o mérito sa ascensão, preparo-me. A escolha de roupa é fulcral. Demais será um peso e provoca sobreaquecimento e suor, que depois arrefece rapidamente; e pouca arrisca exposição ao frio considerável que se sente no topo. Muita água é fundamental, mantimentos calóricos e, claro, folhas de coca em abundância! Em Roma sê romano!

A subida inicia-se então, a passo lento. Muito lento. Apesar de já ter realizado algumas outras ascensões com idêntico desnível em alta montanha (1000m de desnível positivo), nunca o tinha feito a esta altitude. E embora já estivesse acima dos 3500m há mais de duas semanas, chegando aos 5000m no deserto do Uyuni, não sabia como reagiria o meu corpo ao esforço e sobretudo à altitude. Rapidamente percebi: ainda que com 3 dias de aclimatação, as dores de cabeça intensas depressa se fizeram anunciar.

A certa altura seria-me a caminhar como um zoombie, e receei tropeçar ou sair do caminho - algo fatal nalgumas zonas do percurso! Fui parando, a cada 45 minutos. Não mais de 2 ou 3 minutos de cada vez, para não arrefecer ou perder o ritmo. A certa altura, estaquei. Olhei o Teo nos olhos e confessei que não sabia se estaria em condições de fazer a subida. Ele pôs-me a mão no ombro e com uma suavidade na voz que senti como um toque de magia e que agora me humedece o olhar, disse: "Tu consegues! Eu sinto-o. É normal sentires-te assim, é a altitude. Estamos quase lá." Que há anjos, nunca duvidei. Mas vê-los é raro. Sentir o seu toque ainda mais! Este foi um desses momentos.

O "quase lá", no entanto, eram quase 200 metros em altitude, e a parte mais exigente da ascensão. Uma parede de neve e gelo erguia-se à nossa frente. Só de dia veria a sua total dimensão - e ainda bem!!! Mas pela exigência física e técnica a adrenalina explodiu e de repente todos os sentidos estavam despertos! Os últimos 100 metros foram quase feitos na vertical, crampons espetados de frente, piolet usado para subir o peso do corpo, atenção plena em cada movimento.



A subida ao Huayna Potosi não é tecnicamente difícil (pelo menos quando feita pela rota normal). Há quem diga até que é o 6000 mais acessível do mundo (não sei, nunca subi a nenhum outro). Para mim, era um objectivo que me aliciava há anos, de cada vez que vinha à Bolivia com grupos Nomad, bem visível desde La Paz, isolado, sedutor. A par do Caminho de Santiago, 250km e 9 dias de êxtase e dor que percorri em Março, foi dos maiores desafios pessoais a que me propus.

Não foi o troféu da montanha que me levou a tentar a subida. Esse de pouco ou nada serve. Foi, isso sim, a decisão de fazer algo que nunca tinha feito. De me testar, de ver até onde podia ir, de me questionar e ir para além da minha zona de conforto, expandi-la e, quiçá, voltar de lá maior e mais forte. Interiormente. E não poderia ter tomado melhor decisão! A chegada ao pico, ainda de noite, com as cidades de La Paz e El Alto iluminadas, ao longe, pareceu-me inverosímil. Senti-me fora do meu eu. Como um espectador de mim próprio, do cenário onde me encontrava. Senti uma paz, uma energia, uma plenitude que poucas vezes na vida havia experienciado. A última das quais à chegada a Santiago de Compostela, igualmente de corpo vergado mas de espírito erguido, vertical. Naqueles instantes nada mais importava. Estava absolutamente absorto no agora. Aqui e agora. E como é bom!!! Como nós devíamos focar mais em experiências deste género, implicando ou não desafios físicos!

No próximo domingo tentarei terminar o último e porventura mais difícil dos 3 objectivos a que me propus à entrada dos 40: correr uma maratona. Tal como no Caminho de Santiago como na subida ao Huayna Potosi é o processo que me interessa, mais que o (eventual) sucesso da empreitada. Não é garantido. Mas tudo farei para lá chegar.


4 comentários:

  1. Boa sorte para a maratona. Grande abraço.

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  2. Vais conseguir António! Corra tudo bem é o que te desejo. Um abraço

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    1. Agradeço, Ana! Feito, foi uma experiência e pêras!

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