26.10.13

Sem fôlego


Ficar sem fôlego é uma expressão que pode ter mil interpretações, consoante as inflexões da dicção, o olhar mais ou menos sorridente, as pulsações do visado ou a frieza analítica dos efeitos fisiológicos associados, entre muitas outras variáveis. Para mim, refere-se sobretudo àquela sensação de imponderabilidade física e emocional perante um estímulo poderoso, intenso, incontrolável.

Na montanha, este estado é para mim comum. Nos Picos, quase constante. A paisagem é impressionante e a escala avassaladora. As cores claras da cordilheira calcária estendem-se ao longo de 3 maciços: Oriental, Central e Ocidental. O mais selvagem e inóspito é sem dúvida o Central, espartilhado, onde encontram refúgio os picos mais altos e onde a meteorologia faz, também, sentir-se com contorcionismos luminosos que em fugidios segundos transformam visualmente vales profundos e arestas cortantes.




Este ano o Verão esteve diferente. Por todo o lado a presença de neve contrariava o calendário. 2013 foi extremamente duro, com imensa neve até muito tarde e em locais que há décadas não se via tamanha acumulação da alva substância. E ainda que esta dificulte a progressão em alta montanha, fotograficamente acrescenta uma camada adicional de interesse e magia visual a que nós, portugueses, somos particularmente sensíveis. Aliás, um amigo meu, escocês, diz que somos o povo mais bizarro que conhece: quando na presença de neve, entramos em histeria colectiva, fazemos um boneco em cima do capot do carro e tentamos levá-lo o mais longe possível com recurso a uma mestria de condução cuidada que em qualquer outra ocasião renegamos visceralmente! Não foi o caso, mas podia ser! O nevoeiro, por seu lado, não se fez esperar, juntando-se à dança num bailado errante por entre as escarpas, ora mostrando ora ocultando o caminho. Até a chuva nos brindou durante estes dias, lavando e dando brilho à rocha, às folhas, à erva vivaz que rompe entre os calhaus.



Na minha última viagem, por ser feita a pé e com preocupações sérias com peso e conforto, optei por levar apenas uma máquina, a mais leve: Fuji X100s. Não é a ideal para fotografia de Natureza, por ser de objectiva fixa e por ter um pequeno-grande inconveniente: a assustadora falta de autonomia, o que, nalguns dias, obrigou a uma gestão criteriosa do "sumo" que cada bateria oferecia... Mas a flexibilidade do baixo peso e a permanente disponibilidade compensam as limitações, para além de a qualidade de imagem e das cores vibrantes serem também excelentes.

Desta semana, ficaram-me na memória instantâneos vários, nem todos concretizados fotograficamente, como o dos neveiros sobranceiros aos teleférico de Fuente Dé, a descida do Collado Pandebano até Bulnes, a Ruta Del Cares e, sem dúvida o ponto alto (figurativa e literalmente), a ascensão até ao Collado Hermonso e subsequente regresso a Fuente Dé, onde um delicioso chá gelado nos esperava como prémio merecido para 5 dias de caminhada!



1 comentário:

  1. Com muita vontade de conhecer os Picos! E as imagens só reforçam a vontade. :)

    ResponderEliminar