14.2.16

Crónicas da Atlântida - fim e principio

Sim. Fim e princípio.

Não. Não me enganei na ordem. As Crónicas da Atlântida chegaram a um fim. E simultaneamente a um novo princípio.

Ao fim de dois anos de trabalho de campo e mais de uma dezena de viagens ao arquipélago, completei a captação de conteúdos para o projecto. É um momento de reflexão, de parar para olhar para a jornada até aqui vivida e, após essa pausa, de forças retemperadas, olhar para a segunda fase, tão ou mais importante: a comunicação deste projecto e a produção dos seus outputs.


Nos últimos nove meses - de Maio de 2015 a Janeiro de 2016 - a página do projecto foi sendo completada diariamente, ilha por ilha, da maior para a mais pequena, de Oriente para Ocidente. São 276 fotos no total, que têm como objectivo espelhar a minha perspectiva pessoal do quotidiano de cada uma das ilhas, mostrando aquilo que um viajante curioso pode encontrar nos Açores. Para além das paisagens deslumbrantes, cenário de um argumento filmado em câmara lenta, a ritmo próprio, as suas gentes são os actores principais, foco da minha atenção, admiração e respeito. E foi nelas, em quase sofrimento por secundarizar voluntariamente o entorno, mas mantendo-o debaixo de olho, como pano de fundo significante, que a minha objectiva se focou. Só eu conheço a riqueza interior que deste arquipélago trouxe! Procurei que tais experiências humanas, pessoais e emocionais transparecessem para o registo documental que lá me levou. Que as fotografias, com toda a sua frieza bidimensional, ganhassem vida por artes mágicas e transmitissem ao espectador pelo menos uma parte do que vivi! Sinto-me um privilegiado – pelo que senti, pelo que vi, pelas portas que me foram abertas, pelas horas de conversas, por vezes silenciosas, que me foram ofertadas. Foram viagens em carrinha de caixa aberta, face ao vento, a ouvir estórias de baleeiros! Foram saídas para o Atlântico em frágeis cascas de nós a quem os pescadores chamam casa! Foram jornadas a vindimar de costas contorcidas, a arrebanhar manadas de vacas por encostas íngremes, a feirar sob copiosa chuvada, tardadas a correr à frente de touros, caminhadas em busca de burros autóctones, lancharadas de porco no espeto para comemorar sucessos de outrem e rezar por futuros alheios... E tanto, tanto, tanto mais! Cada ilha com as suas particularidades, cada calhau, como alguns lhes chamam, com uma alma comum, uma açorianidade que alguns não vêm, outros muito discutem, mas que se sente, se entranha a cada chegada, a cada partida!





Sinto os Açores como minha casa. Minha segunda casa. Em cada ilha poderei regressar e ser acolhido por sorrisos conhecidos. Já antes tinha visitado as nove ilhas. Regressei a todas. Regressarei. Como quem regressa a um lar há muito abandonado. Há muitas vidas atrás...




As Crónicas foram um dos mais longos e intensos projectos fotográficos pessoais que empreendi ao longo da minha carreira enquanto fotojornalista. Em que o foco, tempo, recursos e esforço empreendidos foram maiores. Com empenho renovado, inicia-se agora uma nova etapa. Ao longo de 2016 suceder-se-ão diversos eventos: exposições fotográficas, a produção de um slideshow multimedia, palestras nas principais cidades do país, culminando na publicação de um livro fotográfico, cujos textos serão também eles assinados por mim. É um novo princípio, em que a presença virtual se reduz para dar espaço às iniciativas de carne e osso. Para elas espero poder contar com a vossa presença, para que me seja dada a oportunidade de partilhar esta minha paixão. E para que dúvidas não restem, hoje, neste dia que alguém disse ser dos namorados, renovo a declaração de amor a este território tão peculiar, que há 25 anos trago no coração...

Adoro-vos, Açores!



E um profundo agradecimento a quem esteve desde a primeira hora com este projecto, tornando-o possível: 

1 comentário:

  1. Foi através deste seu trabalho que cheguei aqui. Deparei-me com esta escrita bem elaborada com fotos que merecem uma visita mais aprofundada.
    Abraço.

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