21.3.13

Frágeis oceanos gelados

Mar de gelo... O nome exala imponência, dimensão, poder! A antecipação cresce à medida que o charmoso combóio de cremalheira de Montenvers, vermelho brilhante, contorna a encosta da montanha... E tu aquilo encontramos ao transpor os últimos metros de caminho ante a visão assombrosa que o maior glaciar em terras francesas proporciona: Mer de Glasse em todo o seu esplendor, 12 km de comprimento, 200m de profundidade! O sol matinal assoma por detrás da cordilheira agreste, que parece querer guardar o tesouro a seus pés, fazendo refulgir a enorme massa de gelo esmagada e retorcida pelas paredes verticais da Vallée Blanche...


Mas rapidamente me apercebo que o gigante está ferido, numa luta desigual perante a ameaça invisivel do aquecimento global. Ao longo da escadaria que nos leva ao coração do glaciar (e que paulatinamente tem vindo a ser aumentada) surgem placas sinistras: marcas dos anteriores níveis superiores do gelo, de década a década. Parece impossível que em apenas 20 anos este tenha retrocedido 70 metros em profundidade... com perspectivas para o futuro ainda mais sombrias.

Este local, mais do que qualquer um outro que tenha visitado durante a viagem aos Alpes, sintetisa as rápidas alterações que muitos dos ecossistemas globais atravessam. Apesar da polémica que, ainda hoje, alguns continuam a lançar sobre a teoria das alterações climáticas, dificilmente se encontrará um cenário onde o seu efeito seja mais visivel que num glaciar. E os europeus são dos que mais sofrem.

De regresso a Chamonix, sou convidado por um enorme placard para um jogo de hóquei no gelo. Atendendo às temperaturas que descem mais rapidamente que o sol e aos flocos de neve que sinto no rosto, e apesar de ser bastante crítico quanto a aglomerações clubisticas, decido fazer uma incursão ao ringue local para vivenciar mais uma das facetas desta comunidade tão particular. Num cenário bem diferente do que nos é habitual, no Sul da Europa, o ambiente acaba ainda assim por revelar alguma familiaridade: adeptos exaltados de cachecóis coloridos, movimento e ruído generalizado, bancadas pontuadas aqui e ali por casais de namorados ao lado de avózinhos de olhar simpático e pacífico. Pelo meio, as habituais cenas de pancadaria entre jogadores, que acabam por ser a maior animação da noite. No final, a equipa da casa vence. Felizmente, diria, dada a quantidade de sticks de hoquéi ameaçadores que circulavam pelas redondezas!

Na manhã seguinte decido fazer uma incursão pelas florestas do vale, tendo como destino Vallorcine, a última aldeia antes da vizinha da Suiça, que se alcança através do cénico Mont Blanc Express Train. Comigo trago um par de raquetes de neve. É delicioso caminhar por trilhos que apenas se adivinham, flutuando e avançando sobre a neve fofa acaba de cair, na companhia de esquilos curiosos. Sob um céu cinzento mas brilhante, os regatos vão-se sucedendo, e no solo as marcas de cascos relembram-nos que corços e veados habitam estes bosques. Os estímulos sensoriais são tantos que fotografar se torna uma forma de ordenar ideias, numa paisagem onde a quase monocromia me desvenda continuamente o seu encanto...




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