1.4.13

Judiarias

Comparando com o panorama geopolítico europeu, com países pouco maiores que cidades e múltiplas divisões internas, Portugal é quase um monolito étnico, em que a Igreja Católica Romana, confissão de cerca de 90% da população, se apresenta hegemónica. A coisa mais parecida com tensões sociais será a rivalidade clubística entre Benfica e FC Porto, pese embora contarmos com importantes minorias étnicas (cabo-verdiana, brasileira, cigana e, em menor número, de países de Leste).

Mas nem sempre assim foi. Até 1496, data em que D. Manuel I ordenou a expulsão ou conversão forçada dos judeus residentes em Portugal, por imposição dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, existia uma forte comunidade judaica no país. Em particular na zona da raia, fronteira remota a vários dias de distância da capital.

Em busca do legado que hoje sobrevive, fiz várias viagens à Beira Interior em reportagem, procurando captá-lo fotograficamente. Um dos resultados desse trabalho surgiu no número deste mês (Março 2013) da edição portuguesa da National Geographic Magazine, num artigo em que, ao longo de 8 páginas, o jornalista Paulo Jorge Carmona aborda o historial desta tão emblemática comunidade religiosa.

Procurar as fontes de informação, realizar os contactos prévios necessários e identificar os principais actores de uma história são passos preliminares mas fundamentais para que, mais tarde, as oportunidades fotográficas se concretizem. E são muitas as marcas que nos chegam aos dias de hoje, séculos mais tarde. Em Belmonte, o traçado urbano medieval é testemunha dessa presença, contando com a maior e mais activa comunidade judaica em Portugal, que pratica agora, sem as restrições do passado, o seu culto. O museu, renovado, relembra o passado negro do povo judeu, enquanto a sua sinagoga, com um imponente portão vermelho pintado de fresco, alberga celebrações regulares. Apesar das dimensões reduzidas (característica comum de muitas sinagogas pelo mundo fora, devido ao relativo secretismo em que o culto era praticado em diferentes momentos da História), fez-me viajar para cenários que fotografei em tempos na Europa Central... Já de regresso a casa, nos arredores de Belmonte, passo pelo cemitério judeu onde, bem visível, a Estrela de David se destaca contra um intenso céu azul!

Ainda que de outra época e tendo uma diferente herança, não pude, também, deixar de visitar Centum Cellas, uma torre enigmática que se ergue no meio de vinhas coloridas... Mais a Norte, em Trancoso, foi a arquitectura tradicional a trazer ecos desses tempos... A Casa do Gato Preto (e não, não se vendem lá artigos de decoração :-), com altos-relevos alusivos a símbolos hebraicos, é o seu expoente máximo!

Dias mais tarde, durante o trabalho de edição do material recolhido, foi impossível não reflectir no quão rico é o nosso património, e no quanto a diversidade étnica, religiosa e cultural define um povo...





Na rubrica Grande Angular da National Geographic, um exemplar da Tora, patente no Museu Judaico de Belmonte, abre o artigo cuja fotografia assino.


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