3.6.13

Mau tempo no canal (ou não)


A expressão, cunhada por Vitorino Nemésio, um dos mais ilustres açoreanos, num romance denso que se tornaria um clássico da literatura portuguesa, tem tanto de real como de imaginário. Depende do dia. Ou, melhor, da hora do dia. 
A inconstância da meteorologia por estas bandas é célebre, sendo quase um lugar-comum afirmar-se que nas ilhas temos as quatro estações num dia. Mas, para um fotógrafo, mau tempo é igual a bom tempo! As neblinas, a constante mutabilidade da luz, a chuva e o vento tornam este território um paraíso para a fotografia de Natureza e de viagem.




2013 vai ser um ano experimental no que aos Açores me diz respeito. Não que vá visitar uma nova ilha (tive o privilégio de completar esse périplo há um par de verões atrás, 20 anos depois de aqui aterrar pela primeira vez). Nem é nenhuma nova formação, das que tenho vindo a desenvolver com a Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores. Surgiu um novo projecto: Pelas Ilhas da Atlântida, com António Luís Campos. Objectivo: visitar e fotografar, com um grupo de viajantes/fotógrafos, o Triângulo, (as três ilhas do Grupo Central que se encontram mais próximas: Faial, a ilha azul, São Jorge, o dragão, e o incontornável Pico, com os seus 2351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal). Durante uma semana visitaremos locais icónicos, como o alienigena vulcão dos Capelinhos, em que nos sentimos transportados para uma paisagem lunar, jovem, colorida, repleta de formas únicas. No Pico, a montanha é tão presente quanto o Atlântico. Na prática, quase só temos duas opções: ou fotografamos o mar, ou fotografamos o perfeito cone vulcânico. As vinhas da Criação Velha, Património da Humanidade UNESCO, demonstram o engenho dos picarotos ao domar, a pulso, a paisagem agreste. São Jorge tem, para mim, um encanto especial, um charme discreto mas profundo: ilha de forma original, assemelha-se ao perfil de um monstro marinho repousando. A sua maior particularidade: as fajãs. Estreitas línguas de lava que, após escorrer das encostas escarpadas do vulcão em erupção, se criaram solidificando em contacto com a água fria do oceano. Territórios férteis e planos (coisa rara por ali), são de dificil acesso (ainda hoje existem algumas onde apenas se chega a pé ou por mar). 


Nestes cenários, no início de Setembro, serão múltiplos os ingredientes que farão desta viagem uma visita ao mais exótico que Portugal tem para oferecer: sairemos para o mar em busca de baleias e golfinhos, uma das mais envolventes experiências que já vivenciei, desceremos a um canal de escoamento lávico subterraneo e assistiremos ao nascer do sol no ponto mais elevado de São Jorge, o pico da Esperança - com a esperança de que o nevoeiro não decida jogar às escondidas connosco... 

Quem me conhece sabe o quão apaixonado sou por este arquipélago. Ter a possibilidade de partilhar tal deslumbramento com um grupo, também ele entusiasta da fotografia e da viagem, vai ser certamente fabuloso. O convite está feito!


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