1.7.13

D(o)uro: terra de superlativos


Dizem que o vinho causa habituação. Desconheço, mas confirmo que é tema sobre o qual me dá prazer escrever. Há alguns dias atrás mencionei o facto de ele se me ter atravessado várias vezes na vida (e não, não fui eu que me atravessei por causa dele!). Tudo começou há uns anos atrás, quando uma revista alemã de vinhos, Der Feinschmecker, me contactou para fazer um artigo sobre a familia Symington, de origem inglesa, hoje os maiores produtores nacionais (e mundiais, pois claro) de vinho do Porto. Mais tarde, e por mera coincidência, voltei a trabalhar no Alto Douro, num trabalho que documentou a vida selvagem e o quotidiano de quintas de agricultura biológica, naquela que é a maior área de vinha certificada em todo o país. O resultado pode ser visto na página dos vinhos Altano. Seguiram-se visitas ao Dão e Bairrada, tendo na semana passada regressado ao Douro, mais concretamente à Quinta do Cachão, das Caves Messias.



A dureza e a beleza da paisagem não eram para mim novidade. Conheço particularmente bem aqueles meandros, com as Quintas de Canais, Vargellas, Senhora da Ribeira ou Vesúvio, coração do império que Dona Antónia Ferreira, conhecida por Ferreirinha, desenvolveu nos finais do séc. XIX. Enviuvando muito jovem, lutou contra o status quo da época, em que era "suposto" as mulheres ficarem em casa a tratar dos filhos, revelando-se uma hábil conhecedora do vinho do Porto. Pisar o soalho que figuras destas pisaram, mais de um século atrás, com vista para os socalcos de vinhas a subirem, quais cabras endiabradas, as encostas inclinadas que se debruçam sobre o rio, faz-nos sentir o peso da história.

Mas é o nascer do sol que mais me impressiona aqui. O jogo de luz e sombras que o movimento ascendente do astro-rei provoca desafia a imaginação. Quando a isto se associa um espelho de água perfeito, não é dificil fotografar. É, isso sim, dificil gerir emoções e desafiar a beleza que temos diante de nós, tentando enfiá-la dentro de uma diminuta objectiva.


Uma das formas mais autênticas de visitar o Alto Douro é de combóio. A linha é das mais impressionantes que já percorri (ainda que a memória dos tempos de adolescência da viagem à tristemente condenada Linha do Tua se mantenha viva, e essa sim é a mais espectacular de todas). Entrar no Pocinho e ir até à Régua é uma excelente proposta, visual e gastronomicamente falando. A lentidão pacifica da máquina em movimento, a forma como a paisagem se desvenda, o verde em contraste com o castanho da terra, os bancos desconfortáveis mas simpáticos das carruagens... Toda uma experiência a viver.

Mas quando o final do dia se aproxima, um local a não perder é o morro de São Salvador do Mundo. Acho o nome, só por si, delicioso. A vista... pode provocar problemas a quem seja facilmente impressionável... Melhor que dizer, só ver. Vão. Já!


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