14.2.15

Carnaval puro

 (Hoje faço um parêntesis na série de posts sobre a invernia. É Carnaval, ninguém leva a mal!)

É um exercício interessante, por vezes, dar uma segunda mirada ao nosso arquivo fotográfico. Em alguns casos as faces ruborizam-se com a ingenuidade dos trabalhos mais antigos, noutras relembram-se momentos épicos que nos marcaram de forma indelével, mesmo passados tantos anos...

A propósito da quadra do Carnaval que presentemente atravessamos, recebi há dias um email do director da National Geographic, sugerindo-me revisitar para a página da revista um artigo (produzido em 2005 e publicado em 2006) que nos proporcionou uma boas gargalhadas durante o processo de criação da história, que pode ser lido na totalidade em Carnaval Puro, uma peça na qual me propus retratar o quotidiano de Cabanas de Viriato.



A localidade, no distrito de Viseu, tem no Entrudo o ponto alto da agitação: é lá que tem lugar a Dança dos Cús, um insólito baile que percorre a vila de cima a baixo ao longo de 3 dias e em que os foliões, vestidos das mais improváveis fantasias, fazem chocar os glúteos contra os do par, ao som de uma repetitiva valsa, datada do séc. XIX, que a banda filarmónica orgulhosamente toca hora após hora, como se da primeira vez se tratasse. Especularia até que os músicos têm sonhos (ou pesadelos!) com tal sequência de notas musicais!

Esta foi uma das primeiras grandes reportagens que desenvolvi para a National Geographic, numa época em que as histórias de vida quotidiana eram um dos focos principais da revista. E uma que me deu um particular prazer a concretizar, por este ser um carnaval diferente, popular, genuíno, longe das réplicas mais ou menos bacocas importadas do Brasil, em que meninas arrepiadas de frio andam meio nuas à chuva. Mas também pela ligação que tenho à terra, pelas recuadas memórias em que me lembro de participar na folia, disfarçado de muita coisa, mudando inclusivamente de "género" por umas horas!


 
Deixo-vos com algumas imagens destas semanas, em que acompanhei várias personagens daquela terra; os trabalhos preparativos da Associação de Carnaval; as noitadas em bailes como já é raro encontrar, em velhos teatros de balcões de madeira; a saudável rivalidade entre famílias históricas de Cabanas de Viriato e, como não podia deixar de ser, as longas danças nas suas ruas graníticas, sob o olhar complacente do gigante branco, a Serra da Estrela, no horizonte.

E faço o convite: participem na Dança dos Cús, Domingo, 2ª e 3ª feira de Carnaval! Àparte o ligeiro incómodo no traseiro se tiverem por parceiro alguém magro (ou desajeitado), é uma experiência a recordar!


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